Multimídia

Alex Sant’Anna, músico, compositor e produtor do selo Disco de Barro

Entrevista realizada por Verlane Aragão, no dia 17 de fevereiro de 2011, com o músico Alex Sant’Anna. Além de produzir um trabalho solo, ele integra a banda NaurÊa, e está à frente do selo Disco de Barro.

Alex, eu gostaria que você falasse especificamente da sua atuação junto ao selo Disco de Barro, quando surgiu, como você tem trabalhado.

A minha empresa é de 2004, mas só em 2006 eu fiz todas as alterações e para transformá-la em um selo. É também uma produtora de vídeo. Foi nessa época que a [banda] NaurÊa lançou o disco Sambaião. Na verdade, há um ano eu tento aprender como é ser um selo hoje em dia, principalmente no mercado atual, onde não se vende mais CD. Continuo aprendendo com as bandas que trabalham no selo: tem a Cabedal, Werden, A banda dos Corações Partidos, o meu trabalho Solo, a NaurÊa, Coutto e Orchestra de Cabeça, e Tatá Erê. A [banda] Plástico Lunar não faz parte do selo, mas lançou uma demo com a gente. Temos feito reuniões para ver como a gente pode trabalhar a distribuição – nenhum artista do selo assinou ainda, mas eu tenho contrato aberto de distribuição digital dos produtos junto com a RN7, que é uma empresa onde o David McLoughlin trabalha. É da BMA, e vai distribuir internacionalmente as músicas. Ainda estou em processo de aprendizagem. Quando falo que estou criando um selo, as pessoas falam “você é louco”, mas a ideia é trabalhar com os artistas que estão próximos justamente porque eles não têm essa perspectiva de lucro imediato com o selo. E aí fica uma loucura! Normalmente quando se cria uma empresa você vislumbra o lucro a longo ou curto prazo, mas eu não consigo visualizar a possibilidade de lucrar com o selo. Obviamente a gente consegue “nome”, “Know How” no mercado, mas financeiramente eu não consigo ver… Estou caminhando junto com o pessoal para aprender a fazer isso.

Você não acha que exatamente por ser músico, na verdade você estaria criando um braço pra viabilizar o que você produz como artista?

Se fosse só o meu trabalho, o da NaurÊa, e o da Corações – que são mais ligados a mim – teria sentido, mas tem Cabedal, tem Coutto e Orchestra de Cabeça, e tem mais gente querendo chegar, outras bandas interessadas. Talvez porque em Sergipe só exista esse selo. Talvez na pesquisa você consiga identificar outros, seria interessante, mas eu não conheço. Eu quero trabalhar e sei que vou ganhar alguma coisa com isso, mas financeiramente eu não vejo como. Com a distribuição, sei que vou botar o disco de todo mundo pra vender. De repente, lá na frente, eu possa virar uma editora pro pessoal e enfim ganhar algum dinheiro, mas em curto prazo eu não vejo isso. Sei inclusive que quem está trabalhando com o selo está disposto a também aprender comigo o que é ser um selo.

Você falou que está trabalhando com pessoas próximas de você. Existe algum tipo de critério para incorporar algum artista no seu selo?

Na verdade o critério é ser próximo a mim! A Banda dos Corações Partidos é mais do que próxima: eu componho pra banda, minha mulher canta, meu irmão toca. Tem a NaurÊa, que eu faço parte. Tem o meu trabalho solo, e os outros acabam sendo braços da NaurÊa: o Pilão de Pife é o trabalho de Aragão e Betinho, o trabalho de Alemão é a Coutto e Orchestra de Cabeça, e na Plástico Lunar o Léo (irmão) toca. Só a Cabedal que foi por escolha – “eles escolheram o selo e eu escolhi a banda”. É uma banda que eu gosto muito e acredito no potencial. Acrescentou coisas para o selo, dá uma moral ter a Cabedal com a gente. Eles estão conseguindo uma divulgação bacana e falam sempre o nome do selo. Então, eu acho que só com a Cabedal eu não tinha essa ligação mais forte. Depois que eles entraram no selo é que a gente começou a criar amizade. Eu não tinha muito contato nem com o Saulo nem com o Marreta, os líderes da banda, mas depois que eles entraram a gente começou a se falar, se ver em reuniões, discutir…

Então foi a Cabedal que procurou o selo?

Nem lembro como foi esse start: acho que foram eles que chegaram com a proposta. Estavam lançando o disco, e querendo um selo para ajudar na divulgação. Acho que o selo fez pouco ainda pela Cabedal. Depois que começamos a trabalhar, o grande lançamento foi o disco da Cabedal. Já conversei com Marreta sobre como a gente vai divulgar esse disco, se vai querer que seja distribuído, se vale a pena distribuir em lugares que eles não vão para tocar, que não vai ser vendido… A gente já está discutindo. No início era uma só uma marquinha no disco: ter um selo facilita para os festivais, uma pessoa jurídica por trás da banda dá um ar de organização. Creio que no início eles procuraram isso, mas agora o selo pode ser muito mais que isso.

Fale um pouco sobre a participação do selo nas coletâneas.

A primeira coletânea foi o Sergipe’s Finest. Houve oficinas da SECULT, a NaurÊa tinha sido selecionada pra tocar na Feira Música Brasil, e eu vi o que uma coletânea pode fazer por mim quando eu participei da coletânea Music From Nordeste. Aí eu é que propus e corri atrás. A SECULT deu apoio, a Aperipê e o SEBRAE também, mas a iniciativa foi minha. Às vezes fica parecendo que é produto da SECULT ou produto da Aperipê, mas não é. Sem eles a coletânea provavelmente não sairia, mas é um produto Disco de Barro. A outra coletânea já é da Aperipê, a Music From Sergipe, que teve uma pré-curadoria do selo. Aí sim, ao contrário, o selo participou de uma produção da Aperipê. Foram essas duas coletâneas. A primeira saiu na Folha de São Paulo, falando bem, citando alguns artistas, foi distribuído para muita gente na Feira Música Brasil. Houve alguns problemas gráficos, mas a seleção foi muito elogiada nos lugares. Eu penso em fazer outras coletâneas, não tem como viajar com o selo – como eu fui agora pra Feira da Música em Belo Horizonte – e ter que levar vinte CDs, de artista pra caramba, sentar numa rodada de negócio, muito rápido, e ter que apresentar o trabalho de todo mundo. Numa coletânea que tem o release das bandas, o contato, a gente tem um resultado melhor e pode circular com muito mais tempo. Então penso em continuar trabalhando com as coletâneas, direcionando energia para os artistas que trabalham no selo. Não há mais como abraçar toda música sergipana, e nem eu quero mesmo.

Isso é porque se vislumbra uma heterogeneidade muito grande? Você pensa em música sergipana que talvez não dê coerência à própria música sergipana?

Não quero ter obrigação com muita gente. Gente perguntando “porque minha música não entrou?”. Quero fazer o que eu quero, pensando como dirigente de um selo. Quero divulgar os artistas do meu selo. Claro que quando viajo para fora do Brasil eu levo CDs de artistas daqui, isso a gente sempre fez e vai continuar fazendo. Mas a intenção das coletâneas é fazer com artistas do selo, poder colocar mais músicas de cada artista, mais possibilidades daquela banda poder apresentar o trabalho e divulga-lo de verdade.

Você falou que seria interessante que houvesse outros selos, e que você só identifica o Disco de Barro. Qual o papel do Disco de Barro na cena local? O selo cumpre um papel? Que papel é esse?

Não sei. Também estou aprendendo e tentando descobrir esse papel.

E como repercussão, o que você consegue apreender? Por exemplo, no caso da Cabedal, que é um produto concreto, que tipo de repercussão, que tipo de benefício as pessoas parecem tirar participando do selo?

Eu não vejo muito benefício que a Cabedal tenha conseguido a partir do selo. Acho que o selo teve muito mais benefício de ter lançado a Cabedal. Tê-la no casting do selo foi muito proveitoso pra nós.

Você não acha que a existência de um selo aqui em Sergipe, acaba estimulando a cena de alguma maneira?

Sim. Em qualquer tipo de organização a gente vai aglutinando pessoas, e a tendência é começar a trabalhar como uma espécie de coletivo. Mesmo não estando ligado a um coletivo maior, como o “Fora do Eixo”, por exemplo. Eu acho que a gente pode fazer coisas simples como tocar músicas das outras bandas do selo para divulgar. A Cabedal já quer tocar música da Corações Partidos. Acho que posso tocar no meu show coisas da Cabedal. A NaurÊa pode tocar Pilão de Pife. A Corações tocar Coutto e Orchestra de Cabeça… Aí a gente vai se divulgando com coisas simples.

O selo tem interesse em ampliar seu casting para artistas de fora do estado?

A priori não. Primeiramente temos que trabalhar com quem conhece a realidade do selo: quem sabe que não existem funcionários, e que quem trabalha no selo o faz nas horas vagas das outras profissões. A gente não tem como arcar com processos simples, como divulgação ou mala direta. Coisas que poderiam ser feitas, mas não tem como. Já recebi email de bandas da Bahia querendo trabalhar com o selo e eu respondi que agora não dá. Estamos meio que fechando a porta por enquanto: não entra mais ninguém! Porque o selo precisa se organizar, e isso foi uma decisão coletiva.

Você poderia nominar essas pessoas que decidem com você?

Sou eu, Werden, Alemão e Marreta. Viemos conversando sobre isso em algumas reuniões, e sobre outras coisas, como ponto de venda de CDs em Aracaju. Não há ponto de venda de CDs aqui – a gente precisa criar, seja em banca de revista, restaurante, casas de show… Tipo o Cultiva. Ter todos os dias lá para vender Alex Sant’anna, Cabedal, e sem muito esforço dá para fazer isso. Veremos também para quem mandar esses discos, produção de shows; separar verba do “Pago pra ver” para o selo, e usar essa verba pra os envios do CDs, inscrições nos festivais, ou seja lá o que for.

Aproveitando que você falou do “Pago pra ver”. Já que foi a Disco de Barro que assumiu o projeto, qual a ideia do projeto e o que é que se pode esperar?  

Realmente tomamos posse. Começou como um projeto da Corações Partidos, mas a Corações não tem do que reclamar, porque tocou em quase todos os shows do “Pago pra ver” (risos). Então, a ideia é fazer uma vez por mês, a partir de abril, porque o ano começa depois do carnaval e o mês de março aqui em Aracaju vai ser bem movimentado. Haverá Semana do Teatro, Aniversário da Cidade, Virada Cultural, então não tem como produzir nada nessa época. Mas em abril é possível que aconteça, e assim continue, pelo menos uma vez por mês pra que assim – isso é um sonho – a gente possa fazer um festival. Bem simples, aos moldes dos que eu vi acontecendo na Europa. Nesses festivais você tem seu camarim pra trocar de roupa, mas toda parte de comida e bebida é coletiva. Aqui você toca, por exemplo, no Projeto Verão, e não conversa com ninguém. Não troquei uma palavra com o Falcão, não troquei uma palavra com o Alceu Valença, não sei se eles gostaram ou não do show, não sei se eles viram ou não viram. Mas quando um festival põe todo mundo pra socializar você já leva essa experiência para o lugar de onde você é. Tenho muita vontade de fazer um festival.

E seria um festival produzido pelo Disco de Barro com a marca “Pago pra ver”?

Sim. Primeiramente a gente tá pegando essas experiências com shows, pra depois fazer. Mas não há previsão de quando isso vira um festival.

Um festival de música feita aqui em Sergipe ou um festival aberto?

Não gosto desse negócio de música feita em Sergipe. E também não gosto de festival de rock, festival de forró… Eu gosto de festival de música. Pode ter forró, pode ter rock, valsa, ballet, teatro, tudo junto. E não tem que ser só de Sergipe. Escolher quem vem de fora, quem daqui de Aracaju vai tocar, podendo conversar e trocar ideias, é isso. Um processo de curadoria.

Você diz que está aprendendo a construir um selo. Que tipo de contato, nas feiras ou em outros lugares, são privilegiados e lhe permitem construir o selo?

Em 2006 eu tive a oportunidade de tocar no Porto Musical. Paulo André produz o Porto Musical e o Abril Pro Rock; ele ouviu meu disco, gostou, e me chamou. Estava pensando o quanto eu aproveitei daquele evento, mesmo tendo tocado, e o quanto eu aproveitei das outras feiras. A minha falta de experiência naquele ano foi… Eu não conseguia nem chegar perto das pessoas, mesmo tendo o disco na bolsa. Era uma vergonha! Depois tive a oportunidade de tocar na Feira Música Brasil, e de novo no Porto Musical, dessa vez com a NaurÊa. Em seguida na Feria em fortaleza, e então você vai conhecendo as pessoas, dialogando, trocando ideia, vendo como elas divulgam seus trabalhos. Aí a gente vai aprendendo! Mas eu só consegui depois de romper alguns medos participando de algumas feiras.

Independente de estar indo como artista, cada vez mais você se apresenta como Selo Disco de Barro, não é?

Sim. Imagine eu chegando para você e dizendo “eu sou da banda NaurÊa, tem aqui nosso disco, mas eu também tenho isso aqui pra você, tenho esse outro disco que eu queria te entregar, tem a Banda dos Corações partidos”… A pessoa fica sem saber o que é! Mas chegando como selo eu apresento os produtos. Mesmo que eu fale que toco na NaurÊa, que aquele CD solo é o meu, eu estou representando o selo com vários artistas. Isso facilitou muito para mim na última feira, porque eu chegava como Disco de Barro. Aí a pessoa sabia que eu não estava lá vendendo só o meu peixe: era o trabalho de um grupo.

Você acha que o que você está vislumbrando pro “Disco de Barro” vai além do papel de um selo?

Eu ainda não sei até aonde vai o papel de um selo. Nunca tive a oportunidade de conversar com alguém que tenha um. O único contato que eu tive com alguém que tinha um selo foi com um cara no Porto Musical, em 2009. Quando eu disse que também tinha um selo, ele disse “você é louco”. Foi o único contato que eu tive. Realmente ainda estou aprendendo.

Na perspectiva do “Disco de Barro”, como é que você observa a cena hoje em Sergipe? Existe uma cena?

Existe. Há uma galera em sintonia que tá fazendo um som, mesmo não tendo uma estética definida, uniforme, que permeei todas as bandas. Mas tem uma galera que tá fazendo um som, dividindo palco, se curtindo, indo assistir aos shows. Temos a Cabedal, Elvis, The Baggios, Plástico lunar, A Banda dos Corações Partidos, meu trabalho solo, NaurÊa e a Maria Scombona; que já tem mais um tempo, mas que também faz parte desse movimento, temos Reação e Mensagem Negra. Há 10 anos a gente não tinha isso. Éramos meia dúzia, agora tem uma porrada de gente fazendo, e aí começa a se criar uma cena. Eu lembro que em 1999, eu e o Pablo Ruas começamos o C.H.A.M.A (Consciência Humanitária Para Arte e Movimento em Aracaju). Havia também o teatro com a Diane, outras bandas como a Cheiro de Pão, a Escamboada que era a banda de Pablo, o meu trabalho solo. Nessa fase eu já conhecia o Márcio, gostava muito das ideias dele. Marcamos uma reunião na casa dele pra conversar sobre o C.H.A.M.A. O Márcio falou “sim, o que a gente tem de produção? Como é que quer construir uma cena sem ter produto?”. Só existia a ideia do negócio: eu não tinha lançado nada, a Escamboada não tinha lançado nada… Hoje não. As bandas já surgem lançando EP com cinco músicas pela facilidade de gravação. Todo mundo tem música tocando na internet, as pessoas vão conhecendo, e isso acaba criando o que se pode chamar de cena.

Existe a possibilidade de outros grupos daqui estarem trabalhando com o selo? Quem é que você tá namorando?

Eu gosto do trabalho do Elvis, da Ode ao Canalha, gosto do trabalho da Elisa. Já conversei com o Dudu e ele quer muito lançar o álbum da Carol Prudente pelo Disco de Barro.

Então há espaço para trazer esse pessoal?

Sim, sim! Não agora, pelo que eu já falei antes. A gente precisa se organizar, mas tem espaço sim. Se vier a gente vai transformar numa gravadora gigante. Sou fã da The Baggios, mas eles já têm selo, então pra esse disco não vai rolar. A porta está aberta para a Plástico Lunar – eles são a exceção por que o Léo faz parte e é meu irmão. Tem também uma porrada de banda que eu gosto muito. acho que no Projeto Verão eu gostei mais do palco alternativo do que do palco principal.

Você falou de um festival. Na perspectiva do selo, qual o caminho para se ampliar esses espaços para tocar? Você acha que as bandas com as quais você trabalha precisam pensar na possibilidade de fazer shows em outros circuitos fora daqui?

Acho que todas devem pensar em fazer show fora do Estado, mas é um problema grave a gente não ter onde tocar aqui. Mesmo tendo o mercado fora. Temos o Capitão Cook, mas não sabemos até quando. Temos o Cultiva que vai durar mais tempo, mas que não tem uma estrutura adequada para show. É importante criar esses espaços, e eu não sei como criá-los. Se soubesse seria muito bom. Quem quer investir nisso tem esses problemas da poluição sonora: não querem produzir porque tem medo de ter o som apreendido. E eu entendo o lado de quem chama a polícia, porque ninguém é obrigado a ouvir barulho na porta de casa… É complicado! Mas isso não é só em Aracaju: o pessoal do Recife reclama muito que não tem onde tocar, o Armazém 14 fechou; lá em Salvador tinha o Calipso, que também fechou. Tudo bem, abrem-se outros lugares, mas você nunca tem muito espaço para tocar.

Isso gera uma contradição: você não remunera mais os artistas com a venda dos CDs, são os shows que remuneram, mas também não tem onde tocar. O caminho são os festivais?

Eu não sei qual é a saída.

Quando você pensa em festival, esse festival vai remunerar, certo?

Sim, até porque eu penso em ganhar dinheiro com ele. Se eu penso em ganhar dinheiro eu penso em remunerar quem vai tocar. Nunca fiz um festival e as pessoas podem achar que eu estou viajando, mas eu prefiro viajar e tentar fazer dessa maneira. Não consigo pensar em produzir uma coisa onde a música é o principal, e o cara que aluga o som ganha dinheiro, o técnico do som ganha dinheiro, e o cara que faz o principal não ganha nada.

O pessoal do “Fora do Eixo” justifica o não pagamento de cachê porque consegue mobilizar jornalistas, formadores de opinião, produtores… Ou seja, chamam essas pessoas para ver os shows, que acabam funcionando como uma espécie de vitrine para esses artistas. Você incorpora também essa ideia?

Você paga mais uma pessoa, que é o jornalista. E o cara, depois que divulgar, vai tocar onde? Porque você cria um festival que não remunera, mas em Salvador não tem onde tocar, em Recife não tem onde tocar. Aí a galera faz circuito de festival, só que o circuito de festival não tá pagando. Obviamente a gente não pode ser radical. Quando eu fui tocar no Porto Musical, tanto com o meu trabalho solo quanto com a NaurÊa, a gente não recebeu pra tocar. Mas eu sabia que tinha pessoas lá pra quem eu queria mostrar meu trabalho. O que eu ganhei com isso eu não sei, foi uma opção minha.

O grande salto da NaurÊa foi o Francis Gay ter visto vocês no Rec Beat, não foi?

Ah, quando a gente começa ir pra Europa a gente ganha moral aqui, né?!

Mas ali foi uma situação muito particular, não?

O que aconteceu com a NaurÊa foi coisa de Cinderela. Eu ouvi o pessoal da Móveis Coloniais de Acaju dizendo que a primeira vez que saíram do Brasil ficaram em hostel punk, alugaram dois carros, os instrumentos caindo… Com a NaurÊa não. A primeira vez que a gente tocou na Europa foi coisa “High Society”, coisa bacana. No outro ano foi uma turnê melhor ainda, nunca passamos aperreio. Mas eu não sei se o Porto contribuiu. Eu já vi show aqui em Aracaju em que chamaram a MTV pra cobrir (PUNKA). Quando chegaram aqui eles foram entrevistar o Autoramas, a namorada do cara do Autoramas, e enquanto isso a NaurÊa tava tocando no palco principal e a MTV não cobriu porra nenhuma. Não falou nada do nosso show, e eu me pergunto qual a garantia que a gente tem nisso. Tenho mais questionamento do que certezas. Talvez conversando com Capilé, com Paulo André, a gente consiga extrair mais alguma coisa. Mas quando eles deram palestra eu não consegui. Eu sei que Paulo André faz festival e tal, mas com o DJ Dolores ele não consegue tocar em João Pessoa, que fica do lado de Recife. A Mundo Livre foi tocar lá no festival cobrando metade da metade do valor que eles cobram pra poder divulgar em João Pessoa, ou então não tocava.

Então porque continuar fazendo música?

Porque eu nasci para isso.

 

Transcrição do áudio: Allan Jonnes.

Edição: Edson Costa.

Crédito da foto: perfil da página pessoal do Facebook.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *