Multimídia

André Teixeira, poeta e divulgador cultural

Entrevista realizada por Verlane Aragão, no dia 22 de Fevereiro de 2011, com o poeta, estudante de jornalismo e responsável pelos blogs Progcult e Lojinha de Discos, André Teixeira.

O que você faz da vida?

Eu sempre gostei de apresentar coisas para os meus amigos, já me vi fazendo e gostando disso no meio do processo, quando levei uns discos da Janis Joplin, Jimi Hendrix, Jim Morrison, The Doors… Meus amigos disseram “gostei disso!”. Eu trabalhei na locadora Columbia Vídeo de 1993 a 2007, com alguns hiatos. Apresentar filmes às pessoas, que elas gostassem,  e depois elas me dizerem “Rapaz, esse filme mudou a minha vida”: esse é o ponto. Você apresenta algo para alguém que possa fazer com que essa pessoa mude ou cresça dentro de uma opinião, dentro da construção de um conhecimento. Eu acho que daí partiu a minha vocação de comunicar e informar, acredito que é isso que eu faço. Na locadora, cansado de ouvir pessoas dizerem que aqui em Aracaju não tem atividade cultural, não tem atividade artística, eu comecei a mandar informações por e-mail. Três anos depois, eu resolvi criar um blog.

E para essa função existe um nome? Divulgador Cultural?

Eu tenho dito que é uma ação como o jornal “O Capital”, que é uma fonte onde eu me inspiro para poder reproduzir. Quando você escreve alguma coisa, precisa deixar algo ali para que, daqui a dez anos, alguém possa ler e ter algum conteúdo.  Não apenas uma coisa factual, que não vá acrescentar mais nada. Nesse ponto de informar, eu sou um comunicador.

Para além de divulgar, também provocar.

Com certeza. Mostrar que existem coisas interessantes em Sergipe. Trabalhando no blog eu me vi sem curso superior e, pela primeira vez, interessado nisso. Fiz vestibular para jornalismo, e passei. Eu passei mais de 15 anos sem querer entrar na universidade, por coisas que hoje existem. Mas superei para poder me capacitar para informar mais e melhor, dentro desse mesmo processo. Meu foco é a cultura, a transformação dos pontos de vista através da cultura, o crescimento intelectual que vai propiciar um grau crítico maior, e fazer com que esse ponto seja algo que transforme realmente, que faça com que a pessoa tenha algo a mais. E fazer parte desse processo, no meu ver, é algo pelo qual vale a penar estar vivo.

Na verdade a gente pode dizer que foram dois blogs, não é? Um com a divulgação da agenda cultural, e outro com divulgação da lojinha de discos.

Isso. Eu enviava a agenda por e-mail para as pessoas. Agregar valor com imagem, vídeo, e som é algo que eu posso no blog, e no e-mail não podia. Então hoje eu mando um resumo com o link do blog, onde tem os detalhes com fotos, com vídeos e etc. E sempre para agregar valor, a cada postagem vai uma poesia diferente, uma pesquisa diferente, algo que venha mexer. Eu vou às livrarias e roubo poesias: eu entro lá, abro aleatoriamente, leio e, se eu me impressionar, eu busco na internet e coloco no blog.

Só para eu entender: seu trabalho com a agenda é anterior ao seu ingresso na universidade, que você buscou para melhora-lo?

Sim. Para melhorar a questão técnica, incluindo conteúdo e forma. E o que eu não concorde com a técnica eu posso reverter com um olhar mais crítico. Algo que eu não concorde eu posso tentar mudar dentro dos trâmites da comunicação.

A Lojinha dos Discos veio depois?

A ideia da Lojinha surgiu da pergunta “onde é que tem atividade cultural em Aracaju?”, e o que motivou o blog  Lojinha dos Discos foi “onde eu compro produtos musicais sergipanos?”. Hoje, por exemplo, eu tive uma pessoa de São Paulo perguntando como faria para comprar de lá o CD do Antônio Rogério. Eu passei um e-mail para o Rogério na mesma hora, e ele já entrou em contato com ela. Eu digo sempre que os blogs são projetos em beta, que é um termo da área de tecnologia da informação: significa um software que está em um desenvolvimento constante. Você encontra um erro no software, e na versão seguinte o defeito é corrigido. Os blogs também! Eles vão crescendo, agregando funções e valores. A “Lojinha dos Discos” divulga onde você pode comprar determinado disco, mas também vende para quem estiver fora do estado [de Sergipe].

Aproveitando esse link, os artistas listados ali basicamente disponibilizam sua obra via CD, suporte físico, vendendo em lojas da cidade?

A maioria deles vendem em lojas da cidade. Também têm vários com versões digitais que você pode baixar pela internet de forma gratuita: o pessoal da The Baggios, o pessoal da Nantes, e outros disponibilizam os links para download.

Na sua percepção, você avalia que os artistas ainda não se apropriaram dessa ferramenta?

Eu acredito que esteja começando… Aliás, já começou. A internet está aí há vinte anos, acredito que sejam as mesmas possibilidades incrementadas pelo desenvolvimento da tecnologia. Mas aqui em Aracaju ainda é muito incipiente esse movimento comercial pela internet. E até mesmo o de vender CD! Você não tem lugares para pôr CD a venda  aqui em Aracaju.

Você praticamente compra na mão do artista.

Isso: compra-se na mão do artista, na Freedom, Casa do Artista… Na entrada do Mercado Thales Ferraz tem um cidadão que vende vários produtos, livros e discos também. No G Barbosa, se o artista for lá. Na Escariz abriram uma loja de discos há seis meses; eu ainda não vi, mas deve ter algum artista sergipano.

Tem também a Ágape.

Sim, a Ágape. E acredito que tenha outros lugares que vem vendendo discos. Tem um cidadão, o César Garção, que começou a vender discos e CDs. Há vários cantores sergipanos lá: ele vende na porta do [banco] Itaú, no Calçadão [da rua] João Pessoa. É alguém que observa e participa bastante da cena musical e do público.

Então você é apreciador dos LPs?

Sim, eu sou colecionador de música, e o LP é fetiche! Tenho que carregar sete mil deles de um apartamento para outro em mudanças…

E você tem listados todos os LPs de artistas sergipanos?

Eu não tenho listado, mas eu tenho alguns discos de artistas sergipanos. Tenho alguns de pesquisa, mas é pela Funart. Não sei se já era Funart nos anos 1970, quando o Luiz Antônio Barreto participa com recolhimento de material, Caieira, São Gonçalo… Nos anos 1970 lançaram vários LPs, aqueles de cinco polegadas, menorzinho. Tenho disco do Bolo de Feira e disco da Cataluzes. O disco da Cataluzes, “Viagem Cigana”, é inclusive muito bem quisto entre os discos raros da história da música brasileira, por conta da participação do Paulo Moura e da própria qualidade do disco. Ele tem inclusive bons preços de venda pra fora, e está em um site chamado Rato Laser, que lista os LPs raros da psicodelia, Rock’n Roll, música progressiva, mas dentro dessa linha alternativa. E esse site é bem interessante, mas não sei se ainda está ativo.

E você costuma adquirir seus LPs de que maneira? Como? Onde?

Seu Quirino é o maior fornecedor. Ele fica na Rua Geru, e desde os anos 1970-80 ele vende discos. Depois de um incêndio em que caiu um teto da loja dele ele ficou com uma dívida imensa. Então ele passou a vender discos usados, e já não compra mais das gravadoras. Eu passei a comprar discos com ele há uns sete anos, e é uma riqueza muito grande a música em si. Por ter todo um apelo de material, encartes, o vinil é algo que eu gosto muito, me acrescenta.

Você acha que o fetiche está aí, ou na distinta qualidade do som em relação a outros suportes?

Eu acho que se você tiver um aparelho para reproduzir vinil e CD, ou outra forma de armazenamento de música, é mínima a diferença. Você tem que ser um puta conhecedor para captar. Exceto em questão de profundidade, ou alguma coisa que venha no ar, e faça com que você se arrepie mais do que em outro formato… Mas assim é a música! O lance do vinil eu não sei explicar, é fetiche mesmo, é algo que me fascina muito. Eu viajei para João Pessoa, para Campina Grande, e em Recife, na primeira calçada que eu desci, uma cara estava acabando de colocar discos. Já comprei discos ali, na esquina comprei um disco do Chico Science, de uma editora que só vi lá mesmo… Aí eu me fiz, e vi que eu precisaria de pelo menos uma semana lá em Recife para ver só os lugares centrais. Aí surgiu minha ideia de fazer uma pesquisa, usar a universidade para me dar suporte técnico, e transformar num livro bacana, interessante. É uma pesquisa para mapear sebos, ir aos locais, e mostrar onde você encontra um vinil hoje.

Então esse recorte será regional?

A ideia é fazer em todas as regiões, e a primeira etapa vai ser o Nordeste. Mas eu acredito que essa compilação seja importante não só para quem colecione, mas para quem busca, por exemplo, discos que foram lançados independentes, têm coisas raríssimas.

Você já chegou a ir a Fortaleza?

Não, mas lá vive um dos maiores colecionadores de disco do Brasil.

Ele mantém a própria casa também como um museu. Eu fui visita-lo da última vez que a gente foi para a Feira da Música em Fortaleza, mas no dia estava fechado.

É uma gana que eu tenho [encontrá-lo], e é uma gana de um dos organizadores do Encontro Amigos do Vinil. Eu participei do II Encontro dos Amantes e Amigos do Vinil ano passado aqui em Aracaju.

E quem organiza o encontro?

Eu esqueci o nome dele. No primeiro encontro eu não fui, não me lembro se teve um homenageado. Já no segundo ele homenageou o cantor sergipano José Augusto. E o terceiro ele quer fazer em homenagem a Clemilda. Da última vez eu levei alguns discos para vender, vendi, mas acho que eu voltei com mais discos, porque eu comprei discos lá.

O colecionador adquire, mas ele também participa quase de um escambo. Você realmente vende, ou já vai de olho em alguma coisa pra fazer essa troca?

Também. Muitas vezes eu compro discos repetidos que eu sei que vão ter uma saída de venda ou de troca. Raramente eu vendo, eu troco mais. Uma vez, Leo Levi levou vários discos de jazz dos anos 1950-60, no dia do meu aniversário: eu pirei! Aí com as trocas que a gente fez, ele saiu de lá feliz também. Eu também já encontrei discos. Tem um disco que encontrei em um sebo daqui chamado Treemonisha. Eu nunca saberia da existência de um disco chamado Treemonisha. Aí eu olhei e pensei: “Treemonisha, o que é isso? Scott Joplin? 1906? Jazz-opera?”. Treemonisha foi encenado pela primeira e única vez em 1906, porque foi um grande fracasso para a sociedade norte-americana ver uma opera-jazz com negros no palco cantando. Como isso em 1906? Scott Joplin ficou doente e morreu anos depois de desgosto. E ele é um dos pais do jazz. Esse disco foi uma gravação de 1969-70, é duplo, da gravadora Gramophone, e me chamou atenção o selo. Eu já escrevi algumas introduções para o livro, que é A Feira do Disco, e criei outro blog para reunir texto sobre isso chamado a Feira do Disco, que está inativo agora. Eu vou fazer primeiro em Aracaju, que eu não preciso de muito dinheiro para fazer essa produção. Você viu a Amélie Poulain quando ela encontra a caixinha. Ela diz: “só quem entrou pela primeira vez no túmulo de Tutankamon pode sentir o que eu senti.” E é mais ou menos o que eu sinto quando eu encontro, por exemplo, Sinfonia Popular do Rio de Janeiro, de Tom Jobim, que é o primeiro disco dele de 1953. Yma Sumac, quando eu conheci o som dela eu me apaixonei. E eu tive vários desses encontros.

O vinil permite que você tenha acesso à história e produção da música, que talvez por outros caminhos você não tivesse.

Com certeza.

Percebo que aí há uma relação de troca, uma relação mercantil, mas que a lógica que pré-define isso não é a lógica mercantil, é o gostar de música, é a música em si.

Eu acredito que tenham pessoas que gostam de música e outras pessoas que são só comerciantes. A minha busca no vinil é a busca pelo conhecimento. Eu digo que tenho três músicas: um poema de Fuller que eu musiquei; um poema de Langston Hughes, que é um poeta norte-americano que trabalhou com Charles Mingus; e trabalhou num lance chamado Jazz poetry, com o pessoal do movimento Beatnik e pré-beatnik, e uma minha que é um samba. Quer dizer, eu sou um compositor de emoção. Digo antes de tudo que eu sou um poeta, e tento nas outras coisas que eu faço colocar um pouco de poesia. Eu encontrei um disco dos Mutantes numa feira lá em João Pessoa. Eu estava passando e estudando no centro da cidade os lugares onde poderia achar vinil. Daí eu passei por um senhorinha numa loja lá na feira, cheia de coisas velhas e com discos de vinil. E aí eu vi o disco da Billy Holiday, um nome comum da coleção de jazz. Aí eu vi lá um que gostei, perguntei se tinha mais, ela disse que sim e abriu outra loja. Saíram formigas enormes, aquilo deveria estar fechado há bastante tempo. Aí  eu descobri que ela tinha um disco dos Mutantes novinho e um disco do Dorival Caymmi. Aí esse lance que eu coloco o termo de arqueologia moderna, é você estar lá em Campina Grande, eu entrar na casa de um cara que é um vendedor de discos e tem uma pilha de discos, quase impossível de encontrar alguma coisa, e quando você encontra está quebrado por causa do peso, ou porque ele guardou de forma errada. Eu me vi ali como um arqueólogo.

É possível fazer arqueologia contemporânea na era do virtual, do digital, das músicas que estão na nuvem?

Sim. Eu tenho feito isso acho que quase diariamente. Eu estou com três CDs aqui para encher de arquivos em mp3 com vários discos de Bossa Nova. Percebi que sou um colecionador: gosto de música, e muita coisa que eu não encontro no vinil, encontro no digital. Fiquei sabendo que Wanderléa gravou um disco com Egberto Gismonti quando eles eram casados!… Pensei “Como assim? Eu não sabia disso”. Aí eu encontro o disco, baixo, e em 15 minutos eu já posso ouvi-lo, e isso é muito bacana. Conversando aqui com Pasqual da outra vez, ele me falou sobre J.T.Meirelles, do samba-jazz dos anos 60, trabalhou com meio mundo de gente, fez os arranjos do Samba Esquema Novo, e fez história por causa disso. Tem discos anteriores a isso, tem discos instrumentais geniais, e eu encontrei um link com nove discos para baixar de graça. Aí, o grande lance é esse: passar para pessoas que você sabe que vão curtir aquilo.

Então é um espaço onde às vezes você encontra coisas diferentes, e é por isso que o tipo de fetiche é diferente daquilo que cabe no vinil.

É a música… Eu vou confessar algo agora que vai sujar minha imagem como colecionador de disco, mas enfim: eu estou há três ou quatro anos sem ouvir vinil em casa! Tenho dois aparelhos quebrados e, por eu estar também quebrado, ainda não os consertei. Nesse fetiche de estar comprando disco, eu sempre encontro um que eu queria comprar, sempre encontro alguma coisa. Eu dei entrevista para a Suyene, do Jornal da Cidade, e ela me perguntou quantos discos faltavam para a minha coleção,  eu disse que alguns, só uns 25 mil. É aleatória, mas pode ser mais, no meio do processo você pode  encontrar um cara que fez tantos discos que você não tem. Frank Zappa tem 100 discos, e eu só tenho uns três ou quatro dele. Então quer dizer, colecionar música é menos traumático do que colecionar apenas uma mídia, apenas o vinil, por exemplo. Isso me liga muito à música, e me faz, dentro da cadeia da música local, tentar buscar um lugar relevante – informar onde você encontra as coisas daqui de Aracaju. E prefiro ser menos abrangente e não falar do Nordeste inteiro pelo fato de eu morar em Aracaju. Eu cuido do blog sozinho, passo parte do meu domingo editando, e não recebo nada por isso. Quero focar a aqui para ter um controle melhor.

Mas você sabe que, de alguma maneira, você está promovendo a cena. 

Eu faço questão de que cada pessoa cadastrada no blog, ao receber seu e-mail com o resumo semanal, veja que há essa responsabilidade. Hoje tem mais de 950 pessoas cadastradas, e digo a todas que meu trabalho é um recorte da cena cultural aracajuana. Eu digo recorte porque eu não coloco tudo – o que está na grande mídia eu não coloco. Talvez uma ou outra coisa, mas o foco é aquilo que está caminhando fora da grande mídia. E a ideia é de que cada pessoa que receba possa repassar para os seus contatos, e esses repassem para seus contatos, que repassem para os seus contatos… Eu tenho mil pessoas cadastradas, se cada um deles passar, em média, para dez pessoas, você tem dez mil informes. Se no domingo você pegou e já repassou, na segunda-feira você tem uma segunda onda. Se desses dez mil, digamos, caia para a metade, e eu tenha uma média de cinco repasses para cada um, eu vou ter 50 mil. Eu vou ter no final umas 61 mil pessoas com a informação, como diria Pangloss, o melhor dos mundos possíveis. Esse seria, mas não é.

Mas você tem esse feedback?

Pouco. Poucos comentários, alguns dentro do próprio e-mail, as pessoas respondem uma ou outra coisa. Mas o contador tem crescido – quase 30 mil acessos nesse pouco tempo. Se cada postagem tivesse 61 mil acessos seria outra história…

As bandas e os artistas dialogam com você nesse sentido, percebendo esse papel do blog?

Sim. Muitos enviam material, e outros eu vou catar. Algumas pessoas também fazem esse serviço, então eu busco e faço meu recorte. Por exemplo, eu vou num blog que tenha dezenas informações, seleciono as que realmente quero, coloco a fonte e os links como retorno. É já costumava citar as fontes, mas vi no curso de Jornalismo que isso é questão de ética. O meu lance com a comunicação é fazer com que as pessoas que recebam essa informação também se vejam como comunicadores e responsáveis por fazer a sua cena, se sintam responsáveis por fazer parte, botando um tijolinho ali para fazer uma cena mais interessante.

Além do blog, você percebe se as redes sociais permitem essa difusão maior? Você percebe isso quando lança, por exemplo, a agenda no Facebook?

Com certeza, o pessoal fala e interage a cada atualização. Quase todos os dias eu faço, e é uma forma de dar uma chamada. Eu basicamente uso o Orkut, Facebook e Twitter para potencializar o blog. Eu entrei nessas redes principalmente para fazer a divulgação das postagens e, quando fosse necessário, fazer alguma campanha ou coisa assim do tipo cultural.

Voltando para a questão do blog. Você falou que na verdade se sente, antes de qualquer coisa, um poeta, que seu ponto de partida é a poesia. O blog é voltado para a cultura, mas a gente pode dizer que a música é o carro chefe dele?

Não. A música é mais um elemento dentro desse conjunto.

Dito de outra forma, naquilo que você tem para divulgar, dentro das outras manifestações (teatro, dança, cinema, música…), você percebe que a música é o que mais se pronuncia nesse recorte que você faz de Aracaju?

De fato, a música é o que mais se apresenta, e acaba sendo o maior foco no blog. E sempre reportando a outros, eu acho importante que os blogs locais tenham esse foco também, tanto da divulgação cultural como da parte musical e críticas. O “Viva la Brasa” é muito bom, o “Escarro Napalm”, que o Adelvan faz, o próprio blog do “Programa de Rock” também.

Eles têm uma tradição lá de trás, dos fanzines.

Vina Torto está fazendo mestrado em Salvador, e eu acho que ele é um cara que você deveria conversar, porque ele tem um blog sobre músicos sergipanos, com várias postagens. Ele criou esse blog, e acho que está agora com um site. Ele é professor da UFS, e é fácil encontrar o blog dele. É um nome com quem você vai poder colher bastante informação.

É bastante interessante dialogar com pessoas que em algum sentindo também estão fazendo aquilo que você faz.

Eu digo que a única coisa que esse blog que eu administro tem que os outros não têm é essa divulgação de outros blogs assim, tem uns 9 outros blogs e sites de divulgação cultural daqui de Aracaju.

Desde quando existe o Blog?

Agora em abril de 2011 O Progcult Blog completa quatro anos. A Lojinha tem um ano e meio, não me lembro ao certo. E já depois, no meio do processo, eu vi que o blog serve como uma fonte de pesquisa, se uma pessoa quiser saber das peças de teatro que ocorreram em Aracaju durante tal período, o que estava acontecendo… Eu não digo que é 100%, eu não coloco tudo, às vezes eu falho, mas muitas vezes eu coloco, a ideia é essa. Teatro aqui é pouco divulgado. Eu fui a todas as peças da última temporada na Casa Rua da Cultura, e sempre tinham poucas pessoas, na última vez que eu fui acho que tinham vinte pessoas. O blog tenta abarcar as expressões artísticas e culturais, independente de qual seja a forma que ela se apresente. Mas, de fato, a música é a forma que mais se apresenta lá no blog, tanto que se criou o outro braço que foi a Lojinha dos Discos. Agora voltando um pouquinho para aquele lance da garimpagem virtual. Uma amiga me perguntou: “Rapaz, quando é que você vai colocar mais daquelas músicas bacanas pouco conhecidas?”, aí eu pensei que esse seria um bom nome para a seção: “Músicas Bacanas Pouco Conhecidas”. Eu venho colocando, e têm alguns discos lá que eu penso em colocar em mais uma dessas próximas postagens. São discos que eu nunca ouvi falar, por exemplo, da música tropicalista do Duprat, com a primeira participação dos Mutantes em uma gravação. Eu soube desse disco em um mês, no mês seguinte eu o encontrei, e o dono trocou esse disco que valia cerca de 250 reais por um que eu comprei por dez centavos! A história de como eu encontrei esse disco vai estar no livro.

Esse livro vai estar cheio de histórias muito pitorescas, não é? Você tem um belo material, e tem que saber guardar isso.

Claro. Na Universidade eu quero buscar insumos para desdobrar isso aí, porque já considero isso dentro de mim há algum tempo. Essa viagem que eu fiz foi em 2005, e isso quer dizer que já amadureceu demais.

Uma coisa importante que você falou é que o blog disponibiliza informações sobre o que não está na grande mídia. Tente falar  um pouco sobre a atuação da Aperipê, que é relativamente recente e talvez seja contemporânea ao surgimento do blog. Você acha que vocês caminham juntos, ou você ainda tem coisas que a Aperipê, especialmente na parte da música… você cumpre um papel complementar?

Eu acho que a Aperipê, na divulgação da cena musical sergipana, tem feito um trabalho fantástico. A impressão que eu tenho da Aperipê com a administração da Indira Amaral é uma casa de portas abertas. E o que eu acho que falta é justamente que as pessoas que trabalham na cena cultural não sabem disso. Talvez seja bobagem o que eu estou dizendo, mas eu vejo muita gente procurar a Aperipê e ter realmente um retorno para as divulgações ou o que seja. Acho que a Aperipê realmente tem feito o dever de casa no sentido de tentar abranger da maior forma possível a cena cultural sergipana.

E o que o André Teixeira acha da cena musical atual? Eu digo nos últimos dez anos.

Eu tenho 36 anos, acompanho a cena desde 1993 mais ou menos, então são 17 anos de cena cultural. Pegando esse recorte de 17 anos, eu vejo hoje a cena musical bem mais forte, com as pessoas buscando os canais tradicionais de divulgação e outros. Eu não vejo muito essa divisão de nichos. A contracapa do disco instrumental de uma senhorinha lá do interior de Minas Gerais tem uma pergunta: “Qual a diferença da música popular para música erudita?”. Ela sabiamente responde: “Moço, existe música”. Eu fui ao show da Aliquid no palco multicultural do Projeto Verão, que é uma banda de metal. Eu tenho pouquíssimos discos de metal, e adorei o show. Com respeito ao que você tinha me perguntado sobre a cena musical, ela está bem diversa, com vários segmentos que estão se estruturando. Mesmo o pessoal da música eletrônica tem vário DJs tocando. Eu me surpreendi com um sujeito que tem um projeto chamado ZENoção, que é o Teixeira Rossi, uma figura da cena e músico de música eletrônica. E o Budah Moderno, que foi selecionado agora para uma parada de DJs lá no Rio de Janeiro. Tem algumas pessoas aqui como Leo Levi, que estão crescendo esse nicho do reggae também. Eu vejo muitos produtos musicais excelentes aqui em Aracaju. Patrícia Polayne, Café Pequeno, o Ferraro Trio é impressionante porque os caras trabalham muito, o The Baggios que é da cena Rock’n’Roll, a Mamutes, a Plástico Lunar fazendo um trabalho muito bom, e outras bandas de Rock surgindo como a Renegades of Punk, a Jezebels e outras. É muita gente trabalhando e fazendo materiais muito bons, mas muitos deles somem. Tem algumas pessoas que trabalham aqui já há muito tempo. Acho que o Silvio é um dos maiores batalhadores de música local, com a Karne Krua e a Máquina Blues. Tem outro projeto dele que é o Zartana, mais Rock’n’Roll e mais pesado, não tanto quanto a Karne Krua, mas é por aí. Outro recorte que você pode observar é A Rua da Cultura, o arquivo da Rua da Cultura e as participações musicais.

Isso aí nos leva para outra coisa, que são os espaços para shows em Aracaju, a gente ouve o pessoal reclamar muito disso. Hoje nós temos basicamente dois espaços mais abertos, o Capitão Cook e o Cultiva. Como você vê essa questão?

É um grande problema, até na questão da adequação dos formatos. Há grupos e músicos que se apresentam em teatro muito bem, mas tocar em um bar talvez não. Mas quem foi que disse que o artista tem que estar onde o povo está? É a música. É por aí, eu acho que é buscar fazer também. Eu acho que é também um pouco de inércia que as pessoas às vezes têm. Não só da música especificamente, mas muita gente também tem isso. Eu me colocando dentro de certa culpa também de alguns projetos que andam pouco. Acho que falta o pessoal chegar junto, tentar viabilizar outras ideias de ocupação e de espaço.

Mas você observa isso como um papel similar que o Estado e que a iniciativa privada tem que assumir, ou é outro espaço de atuação dos artistas?

Não, eu acredito que o Estado não teria muito a ver nesse sentido. Fomentar isso basicamente via estado seria…

Nós temos basicamente os eventos, que são eles na verdade que respondem pelo maior número de shows com cachê.

O Estado já faz um papel bem interessante. Eu venho participando de reuniões sobre editais (da Petrobrás, culturais, do Banco do Brasil, da Caixa Econômica, Itaú …), e o que me surpreende em todas elas é a quantidade de propostas e projetos que são enviados. Nas estatísticas, Sergipe aparece zero alguma coisa por cento de projetos propostos, captados então nem se fala! Um papel muito importante que o Estado vem fazendo é propiciar ferramentas para os produtores, ferramentas técnicas de ensino de novas tecnologias para formatação de novos projetos – eu sei que está sendo feito isso porque eu participei de vários. Tenho dois: um organizado pela FGV, realizado no Hotel Parque dos Coqueiros, e um que foi organizado no Museu Olímpio Campos, também visando essa questão da tecnologia, dos projetos, visando os modelos dos editais. Acho que o Estado está fazendo. Acho que realmente faltam mais produtores ou músicos que os busquem, que trabalhem especificamente dentro dessa parte mais técnica. Muitas vezes o artista vai e faz, mas faz mais ou menos. Diferente de um produtor que poderia estar se dedicando a essa parte técnica, e o artista à criação da arte, da poesia, da música. Acredito que estamos nessa construção, tem alguns produtores que estão trabalhando bem, mas ainda há uma carência.

Você fez referência aos editais. Você participou recentemente da comissão que selecionou os trabalhos para a Arena [Arena multicultural – Verão Sergipe] então explore mais essa questão dos editais. Você acha que é esse mesmo o caminho? Esse assunto gera muita controvérsia.

Sempre vai gerar muita controvérsia. Sempre vai haver uma panelinha daqueles que foram aprovados. No final das contas, mesmo que não exista de fato, a panelinha que se forma na cabeça das outras pessoas vai fazer com que exista uma panelinha. Eu li um texto recentemente, “A panelinha não é de barro, é de inox”, do pessoal da Casaca de Couro. Não achei muito bem construído, acho que faltavam elementos para legitimar o que eles estavam dizendo em relação a esse processo. Eu acho que eles ficaram por um de não ser aprovado, foi por pouco mesmo, e por mim seriam eles os aprovados – eles são muito bons e eu gosto. De todo modo, eu acho que o edital é uma ferramenta interessante, mas o negócio é o dinheiro. Infelizmente a gente vive em um mundo em que para o som se transformar em realidade é preciso passar pelo caminho do dinheiro, e ele está em dois lugares: no Governo ou na iniciativa privada. Enquanto a iniciativa privada não se sensibilizar eu acho difícil, e mais ainda no Nordeste. Não tenho certeza, mas se a gente for fazer uma comparação com as estatísticas que foram apresentadas em relação à participação nos editais a gente pode ver isso. São dados mais antigos, os mais recentes são, por exemplo, sobre os editais de pontos de cultura, que visa uma distribuição mais equânime dos recursos. Ele visa que um estado “X” vai ter “X” pontos de cultura, de acordo com a proporcionalidade dos seus territórios e dos seus municípios. Uma das transformações que eu vi, acompanhando esses processos de editais há uns dez anos, é exatamente essa reformulação. E acredito que eles ainda não estão prontos, nenhum edital está perfeito. Eu acho que um dos processos da estimação do edital é essa possibilidade dele se transformar e melhor se adequar às realidades. Acredito que seja sim uma ferramenta interessante para o artista, mas eu vejo que ele não deve ser uma muleta.

Só para terminar, o que é música para você?

Estado de espírito. Quando a música existe ela entra em você e te arrepia, te emociona de alguma forma. Eu já chorei ouvindo Patrícia Polayne, ouvindo Ithamara Koorax cantando disritmia com uma caixinha de fósforo, no Teatro Atheneu. Já chorei no quarto escuro ouvindo Yann Tiersen. E é essa capacidade da música de emocionar que me faz dizer que é estado de espírito, quando ela entra e te contamina e te contagia.

André, muito obrigada.

 

Transcrição do áudio: Allan Jonnes.

Edição: Edson Costa.

Crédito da foto: blog “Minha Terra é Sergipe”.

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