Multimídia

Por dentro do Fora do Eixo

Entrevista realizada por Verlane Aragão, no dia 25 de Março de 2011, com Rafael Rodrigues, Karol Rodrigues e Leonardo Barbosa, produtores do Fora do Eixo.

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Bem, primeiro eu gostaria que vocês dissessem o que vocês fazem na vida, e como vocês se inserem ou que papel vocês cumprem no Fora do Eixo.

Rafael: Então, na vida eu trabalho com produção cultural dentro do Fora do Eixo, faz dois anos que eu trabalho exclusivamente com circuito, um ano e meio eu fiquei mais focado nas ações em São Carlos, desenvolvendo lá principalmente a parte de comunicação. Paralelo a isso sempre trabalhei dentro do Clube do Cinema, que é uma frente do Audiovisual numa tentativa de consolidar uma cadeia produtiva do Audiovisual entre os agentes que vem trabalhando no circuito no Brasil e também aproximando novos agentes, explicando nosso modelo de trabalho, nosso modo de produção, nossas tecnologias de compartilhamento de comunicação e indicadores pra conseguirmos crescer juntos. Nos últimos meses eu saí do Massa Coletivo e passei a trabalhar exclusivamente com o circuito Fora do Eixo, nesse período eu obviamente comecei a absolver mais funções no coletivo, e hoje eu sou responsável do acompanhamento e diagnóstico de duas novas redes estaduais que estão se consolidando junto ao circuito, que é a estadual do Espírito Santo e a do Paraná. O Paraná, em especial, já tinha um ponto do circuito em londrina, mas não tava tão orgânica a rede, tava um pouco afastada, então a gente encontrou em Coritiba um pessoal bem interessante e estamos trabalhando com eles numa perspectiva de escritório estadual pra conseguir fazer a ponte com as outras regiões do estado. No Espírito Santo já existia uma rede muito bacana, a Cultura Jovem, que já englobava “n” coletivos do estado, e quando eles entraram em contato com a lógica fora do eixo perceberam que era muito parecida com a que eles já utilizavam, com a diferença de que a deles era financiada pelo Estado, ou seja, que isso não seria vitalício e que com o Fora do Eixo eles poderiam está dando continuidade a esse trabalho após esse período de incubação que o estado está oferecendo pra rede.

Léo: Bem, eu também vim do Massa Coletivo, nós três viemos, e hoje a gente faz parte do que a gente chama de Ponto de Articulação Nacional. A rede teve esse crescimento então a gente precisou que pessoas saíssem dos seus coletivos iniciais pra que a gente pudesse ter um corpo de quadros pra cuidar nacionalmente, pra ter uma estratégia de acompanhamento maior dos coletivos que estavam surgindo, dentro de um ponto de articulação que hoje está em São Paulo. Dentro das frentes que a gente trabalha eu faço parte do Partido da Cultura, que não é um partido, é um fórum, um movimento de pessoas que estão discutindo as políticas públicas no Brasil. Dentro dessa denominação eu fico na parte de construção e qualificação da basedos nossos coletivos, fazê-los entender que eles são agentes políticos também e fazer com que eles procurem os fóruns locais pra que eles possam discutir as políticas públicas dos estados e municípios.

Karol: Bem, eu, dentro dessa gestão nacional que o Léo tava colocando, trabalho na frente do banco Fora do Eixo, que pensa a sustentabilidade da rede, que pensa metodologia, organograma, gestão, acompanhamento, orientação, sistematização da nossa tecnologia social, pra conseguir ampliar, avaliar, trocar com outras redes, outros coletivos, pessoas que estão querendo conhecer a rede – a gente sistematiza, vai estudando também como que é esse modelo de gestão sustentável que a gente tá falando, que é um modelo inglês. O Fora do Eixo divide-se em vários núcleos e eu faço esse acompanhamento macro de todos os núcleos junto com a Lenita, e estou na frente também da parte de formação, que é a Universidade Fora do Eixo, que pensa novas metodologias de gestão pra cultura.

Tudo bem, vamos agora ao nosso primeiro ponto, eu queria que vocês tentassem recuperar essa história, que é uma história recente, do Fora do Eixo, e me dissessem como é que vocês vislumbram, olhando lá pra trás, o que era o Fora do Eixo, o que é que houve de mudança e como vocês enxergam o Fora do Eixo hoje.

Karol: Então, o fora do eixo surge de uma galera que tava querendo sobreviver de cultura, e de uma cultura autoral, principalmente na música. Era uma galera que tava querendo fazer produção cultural e trabalhar com bandas independentes. Surgiu dentro de um contexto que é o contexto da Internet, que as bandas começaram a se gravar, começaram a subir suas músicas no My Space, começaram a baixar música da internet etc. Aí a gente teve a queda das grandes gravadoras, quando elas deixam de ser as mediadoras principais do mercado da música e passaram a ser só financiadoras de alguns grupos que não necessariamente darão certo. Então o Fora do eixo nasce nesse contexto de democratização da produção musical, da facilidade da distribuição, e isso fez surgir uma infinidade de bandas, então a galera lá no início da formação do Fora do Eixo percebeu que não tinha espaço pra essas bandas autorais, porque as casas de shows em sua grande maioria se pautavam nos Covers – isso ainda é o perfil de muitas cidades apesar de hoje esse espaço ter crescido – e é aí que começam a surgir festivais que absolvem de fato essa produção. Hoje a gente tem mais de 80 festivais mapeados pelo Fora do Eixo. Bem, um pessoal que estava na Universidade Federal do Mato Grosso estava querendo trabalhar com a cadeia produtiva da música autoral, e eles tiveram a ideia de fazer um festival e chamar uns jornalistas pra vê e pensaram “pô, vamos fazer um festival, tem um monte de banda aí que a gente curte, aí a gente chama os jornalistas, eles vão gostar, vão falar bem, as bandas vão emplacar, vão ser descobertos…” toda aquela mentalidade ainda das grandes gravadoras e aí aconteceu que os jornalistas que falaram não surtiram muito efeito e percebeu-se que a qualidade técnica das bandas eram muito ruins e que não adiantaria se fazer só um festival e que eles precisavam vê toda a questão da cadeia produtiva mesmo, de preparação e tal, e aí pensaram que era preciso um estúdio, que as bandas precisavam ensaiar e eles acabaram vendendo um carro pra comprar o material pro estúdio, e puseram as bandas pra ensaiar, em troca dos ensaios as bandas tocavam nos eventos da galera que tinha o estúdio, faziam essa troca. A partir do momento que as bandas começaram a ficar boas elas começaram a querer tocar em outros lugares, em outras casas, então eles tiveram que começar a fazer parcerias com casas de show e até criaram uma casa de show lá em Cuiabá, isso tudo em Cuiabá. Então a partir do momento que eles tocavam nesse espaço, ensaiavam, foi surgindo a demanda de algum material pra comercialização, gravação, release, uma foto, uma assessoria, e foi aí que eles criaram a Cubo comunicação pra fazer esse diálogo com as bandas e então as bandas começaram a utilizar o espaço pra apresentar, ensaiar, eram assessoradas e em troca eles tocavam lá e em alguns outros eventos. Em paralelo a isso as bandas começam a querer circular, porque num adianta só ficar na cidade, foi surgindo a necessidade de circular para além de Cuiabá. Ao mesmo tempo eles(o coletivo) começaram a perceber que as bandas começaram a ficar insatisfeitas, tipo: “tamo tocando de graça”, aí a galera da comunicação : “tamo fazendo release de graça”, foi rolando uma insatisfação pela falta de visualização de que se estava gerando uma economia ali, e foi aí que surgiu a moeda né, era preciso remunerar esse pessoal mas não se tem dinheiro, “vamo criar nossa própria moeda” e foi aí que surgiu o Cubo Card. Então começou-se a remunerar as bandas, elas começaram a ganhar cachê em Card, e elas utilizavam esses Cards no estúdio e na comunicação, e aí começaram a entender como que gerava ali uma economia, ao mesmo tempo começaram a surgir muitas bandas interessadas, porque era possível usar o estúdio apenas com o serviço, e aí ampliando esse espaço começaram a surgir muitas bandas, o espaço Cubos foi percebendo que não tinha o lastro dessa moeda e começou a fazer parceria com restaurantes, com hotéis, com gráficas, com lojas de roupa, enfim, com outros fornecedores que não eram da própria cadeia produtiva da música pra conseguir escoar esse Card também. Então quando a banda recebia o cachê eles poderiam não só gastar no estúdio como eles poderiam comer, comprar uma roupa, uma corda, etc. Eles conseguiram ampliar tanto essa cadeia, esse sistema de crédito solidário, que conseguiram até parceria com plano de saúde, escolas de inglês, vários comércios de alimentação, tatuagem, e isso movimentou muito a cena e começaram a surgir outros coletivos que trocavam informação, e a cena de Cuiabá realmente cresceu, e os coletivos estavam conseguindo se sustentar. Em paralelo a isso a demanda de circulação ainda era muito latente, e os festivais não davam conta, eram poucos festivais, era caro viajar, então eles começaram a pensar como se conectar, juntar as pessoas dos festivais que acontecem em todo o país pra conseguir uma circulação, então eles fizeram uma reunião em 2005 em um desses festivais que é o Goiania Noise e criam a Associação Brasileira de Festivais Independentes (ABRAFIN). Alguns dos festivais associados indentificaram que tinha um modus operandi parecido ou estavam interessados no modus operandi do Espaço Cubo, e perceberam que eram coletivos que queriam trabalhar o ano inteiro e não só fazer o festival, e então eles começam com o coletivo Fora de Eixo aí, com o coletivo Catraia (Goiânia) o espaço Cubo em Cuiabá, o Goma em Uberlândia, e o Alona em Londrina, na verdade esses coletivos surgem depois, inicialmente eram os festivais e a partir da intervenção do Cubo eles viram coletivos e começam a dialogar, discutir as cenas, trocar bandas, e como Londrina é muito longe de Rio branco, de Cuiabá, de Uberlândia, eles percebem que se houvessem pontos entre essas cidades isso ajudaria muito a baratear os custos e fortalecer a rede, disseminar essa lógica de “vamos trabalhar juntos, existe um outro meio de trabalhar”, numa perspectiva mais solidária mesmo, de trazer iniciativas pra perto, pra construir em rede, agregar mais pessoas, construir uma rede municipal, construir uma rede estadual, e aí vai surgindo o Fora do Eixo. Em 2006 inicia-se de fato a rede, a gente começa com quatro coletivos e hoje a gente tem aproximadamente 75 coletivos oficiais, a gente tá em 26 Estados, só no maranhão a gente não tem ponto, essa semana aconteceu o Congresso Fora do Eixo argentino, então tá rolando internacionalização, temos diálogo com Honduras, Guatemala, Costa Rica, Equador, e sempre pensando nesse sentido de que quanto mais ponto tiver a rede mais forte fica esse retorno aos coletivos que fazem parte dela. Hoje a rede já dá um suporte maior, já tem as tecnologias mais desenvolvidas, tem muita cidade, tem a troca de conhecimento, e a gente tenta sistematizar tudo pra que os coletivos que estão entrando agora tenham uma base, e entendam que tem uma conjuntura sendo construída, a gente não sabe onde o mercado cultural vai chegar, a gente tenta conscientizar os agentes todos, os artistas, os produtores, as casas de shows, que a cena está sendo construída e que isso requer um investimento de ambas as partes, não tem ninguém melhor do que ninguém, as vezes a banda tem que vir pagando, pra construir um público, porque aquele festival ainda tá investindo naquela cena, mas na segunda vez vai ser melhor, ela vai voltar, vai ter público, ela vai vender o cd dela, a terceira vez já vai dar pra pagar o cachê e os custos, é um processo em construção mesmo, tanto os festivais, como as casas, os produtores, os artistas, eles ainda tem que investir muito nesse cenário porque ele é um cenário em construção mesmo, e fazendo essa parte da parceria, do diálogo, é que a gente vai conseguindo viabilizar a construção do cenário e a sustentabilidade dos coletivos, porque ainda não existem recursos que financiem esse mercado, é preciso formar essa demanda pra conseguir negociar.

Léo: Eu queria completar uma coisa, esse cenário que a Karol colocou, em que o Fora do Eixo se formou, eles acontecem no campo da música, mas acho que todo esse trabalho em rede, essas novas tecnologias sociais, essa maneira de se organizar em coletivo, ela serve tanto pra outras linguagens quanto pra outras coisas que a gente quiser construir coletivamente, então hoje o fora do eixo tem a parte de Audiovisual, tem a Fora do Eixo letras que cuida da literatura, tem a parte de artes visuais, tem o Palco Fora do Eixo que cuida das artes cênicas, tem essa linha de pensamento do partido da cultura que é pensar que somos agentes políticos também. O passo dado foi se pensar que sim, éramos produtores dentro da cadeia da música e ainda continuamos sendo, mas a gente complexificou os objetos, o que a gente percebeu é que a música é o meio e a grande construção da nossa rede.

Karol: A gente desenvolveu essa tecnologia, eu contei mais a parte da história mesmo, a parte da metodologia, como que a gente conseguiu se estruturar, e ela é muito pautada no desenvolvimento dessas redes, se a gente não tivesse trabalhado dessa maneira a gente não teria conseguido essa capilaridade de hoje, a gente encara esse modelo de gestão de coletivo um modelo estratégico de desenvolvimento, por vários motivos, quando você se organiza em coletivo você sai do modelo padrão, hierárquico do chefe, ele faz com que as pessoas sintam-se pertencentes mesmo, elas pertencem aquilo, então elas estão bem mais conscientes do processo, começa uma autoformação mesmo, começa um processo de politização, de entendimento do macro, da conjuntura toda do cenário. Um exemplo de estratégia dessa atuação em coletivos é: a gente é um grupo e precisa de uma sede, se cada um morasse em sua casa e a gente precisasse de uma sede a gente não teria como pagar o aluguel dessa sede, então o que é que a gente fez, sob demanda financeira a gente mudou pra uma mesma casa onde funcionava o escritório e a moradia de todo mundo, começou assim, a gente não consegue bancar todo mundo então a gente vai morar junto e vai conseguir viabilizar um projeto, a partir do momento que a gente começa a morar junto a gente percebe que não é só o financeiro que tá em jogo ali, a gente começa a aproximar as pessoas, é um processo de convivência, a gente para de diferenciar o trabalho da vida, é uma troca constante, começa um processo de afinidade, de afinamento da produção, a gente começa a otimizar o tempo, os eventos começam a sair mais redondos, as coisas começam a sair mais coesas, o debate fica mais constante, a gente consegue contribuir mais, a inteligência coletiva cresce – ou seja primeiro vem como uma demanda financeira mas depois a gente percebe que é uma ferramenta importantíssima para o desenvolvimento.

Pensando no fora do Eixo mesmo, vocês mantém uma estrutura horizontal, como você falou não existe aí uma hierarquia, como é que são delegadas as funções, como são delegadas as responsabilidades, quem responde pelo fórum, como isso se dá?

Karol: A gente faz tudo de maneira bem colaborativa, por exemplo, no tópico surge um evento ou uma ação, isso numa lista de email em que todo mundo participa, elas podem ser temáticas, podem ser regionais, e a gente tem uma lista com todo mundo, então a gente abre um tópico e todo mundo tem a oportunidade de participar ali.

Eu penso em termos da estrutura que o fórum tem hoje, cada um aqui é responsável por um determinado aspecto dentro dessa dinâmica toda.

Karol: É muito orgânico, é pelo lastro que se vai construindo dentro do movimento, vai muito do que você está predisposto a fazer, se você tá disponível, interessado, a fim de contribuir, está aberto para a construção coletiva, você está mais apto a entrar pra uma gestão nacional, mas se você ainda tá focado em garantir seu local, se você tem sua vida pessoal ali, tem um outro emprego, então você não vai se ocupar com funções que requerem uma disponibilidade maior de investimento mesmo, a gente fala muito do lastro do trabalho, construir teu lastro dentro da rede, e você construir teu lastro dentro da rede é você está entregue a ela mesmo, se interessar pelas coisas que estão acontecendo, você buscar, você ouvir, entender a demanda, consultar, construir junto, e isso vai dando a legitimidade orgânica de organização desses fóruns, e ela feita de modo totalmente aberta, pode ser autoproclamação, tem um contexto de pessoas que a gente avalia que seria bacana pra ocupar a função, e a gente vai construindo assim, nunca teve uma eleição, nunca teve nenhum processo que foi questionado, porque é tudo construído em cima da legitimidade de cada um mesmo.

Rafael: E tem uma coisa que a gente gosta bastante de falar que é “o incomodado coordena” se a pessoa às vezes sente falta de algum aspecto, sente falta de alguma ação, tá ali fazendo a crítica de um processo que tá sendo encaminhado, então a gente fala “bacana, então assuma como rever esse contexto, assuma outro encaminhamento pra essa proposta”, lógico que a gente não vai fazer isso com alguém que chegou agora e que viu muito pouca coisa, mas com alguém que vem participando do processo, vem desenvolvendo o trabalho dentro do que tá sendo colocado e que de repente se depara com algo que ele discorda ou que ele espera um outro desenvolvimento, como foi o caso do audiovisual, eu tava desenvolvendo um trabalho junto com outras pessoas sobre Web TV e essas pessoas começaram a debater, questionar e dizer “poxa, para além da Web TV a gente quer desenvolver o cinema como um todo, a gente quer pôr as pessoas pra debater a linguagem audiovisual, estruturar essa cadeia produtiva, e aí a gente começou a colocar isso pra rede e a rede devolveu, pediu pra se começasse a organizar o que eles estavam falando, juntamos as pessoas interessadas no audiovisual e começamos a debater o que é que seriam os encaminhamentos necessários pra se desenvolver essa cadeia, e aí surgiu essa ideia de fomentar os cineclubes nos pontos, a partir daí a gente começou um trabalho de estímulo à produção autoral, aí esse estímulo gerou a demanda da distribuição, e a gente foi pondo isso pra rede de forma natural, como parte de um processo, e ela rapidamente absolveu com uma necessidade de estruturar as funções ali dentro aí esse grupo que debateu viu a necessidade de se ter um coordenador pra viabilizar aquilo tudo e aí eu estou nessa função, mas não existe trono, eu estou hoje, pode ser que daqui a uma semana não, é muito mais de como as pessoas vão se envolvendo que a gente vai fazendo a ocupação dessas funções em torno das necessidades do momento.

Voltando pra questão da música, vocês fazem algum tipo de acompanhamento em relação às bandas que ingressaram e como elas estão hoje, na verdade, como que se quantifica ou se qualifica o desenvolvimento das bandas no interior do circuito?

Karol: Isso vai muito também do empenho que a banda dá no seu próprio coletivo, é um trabalho conjunto, é uma troca, a gente dá as plataformas, as bandas tem a oportunidade de se articular pra circular, pra distribuir, pra comunicar, e a banda vai conseguir isso com o trabalho dela, a gente não vai arrumar um produtor, tem banda que pensa que é só entrar no Fora do Eixo e pronto, a gente quer banda que queiram construir espaços mesmo, a gente não quer banda que só queira tocar, a gente quer banda que garanta espaços pra que bandas autorais tenham espaço pra tocar, a gente não quer bandas que queiram tocar na rádio, a gente quer bandas que queiram rádios que garantam espaços pras bandas autorais. Tudo isso é um processo de construção mútuo que vai depender tanto da banda quanto da rede, existem bandas que querem só circular e não querem se envolver, beleza, ela vai circular, vai capitalizar em cima disso e a relação vai ser essa, ou ela pode ser uma banda bem orgânica como é o caso da Macaco Bong, começou dentro do espaço Cubo, ocupa quadros importantes da rede, ela absolveu toda a tecnologia, vive sobre os princípios do fora do eixo, entende a construção do cenário e tem um retorno muito maior, eles começaram investindo pra caramba, várias vezes pagaram pra tocar, circularam o Brasil inteiro, e hoje uma tour do Macaco Bong se paga e dá bastante lucro, conseguem cachê, conseguem a legitimidade deles, entendem que a banda não vai só chegar e fazer o show, vai também conversar com produtor, interagir com a cena, vender o CD, ajudar a divulgar. Compreender isso de colaboração, fazer a parte dela, é um exemplo muito claro do que a Macaco Bong conseguiu fazer, ano passado (2010) terminaram o ano fazendo um show com o Gilberto Gil, então a gente acredita muito que funciona se a banda souber aproveitar as plataformas e absolver os princípios mesmo de não querer só tocar, querer construir realmente a cena, operar nesse modelo coletivo.

Léo: a partir dessa crise da mediação o artista tem que fazer tudo isso, ele tem que construir a cena, tem que está em um nível de debate, de se inserir dentro desse processo assim como todo mundo da cadeia produtiva, o que eu acho que talvez seja o problema de alguns artistas e de algumas bandas hoje é que eles estão pensando ainda na lógica de que o mediador vai fazer a construção pra ele, e o que a gente tá vendo é que não tem mais como essa mediação ser feita por outro, é a gente que tem que construir essa mediação, acho que o exemplo do Macaco é primordial no sentido de que é menos uma precarização do trabalho e mais um protagonismo em relação à força que o artista tem em relação à construção da sua cena.

Isso supera aquela dicotomia entre explorados e exploradores?

Léo: Total, você é o protagonista, você é o seu chefe, seu coordenador, seu orientador, porque na verdade você tá organizando coletivamente isso, essa figura do chefe perde o sentido, assim como a figura do mediador que a gravadora perdeu.

Você fala em algum momento da ausência de um mercado, então vocês caminham na construção de um mercado, isso é o que o circuito vislumbra? O que é que orienta o circuito hoje? O que é o circuito pode gerar dentro da sociedade?

Rafael: A gente costuma falar que a gente não sabe onde o circuito vai chegar, não sabe pra onde ele está indo, no começo ele tava organizando e viabilizando a carreira no mercado da música, depois ele passa a viabilizar uma estrutura de mercado, hoje a gente fala que trabalha a cultura em um,sentido antropológico, que a gente não tá só trabalhando o produto cultural, a gente tá trabalhando o comportamento desses agentes que trabalham em torno do mercado da cultura, hoje a gente extrapola a cultura como arte e vai pra cultura como sociedade, como a pauta do fora do Eixo ambiental que vem debatendo novos modelos de sustentabilidade dentro da produção cultural e da sustentabilidade ambiental, a gente vai revendo a postura da sociedade civil como protagonista do desenvolvimento desse mercado e de políticas publicas não só pra cultura como pra uma sociedade contemporânea do século XXI, numa outra era de compartilhamento de informação, então a gente puxa a história do partido da cultura, e o que a gente entende é que hoje a gente é uma geração que nasce e se desenvolve num outro contexto social, que é um contexto de até pós-globalização, nessa era de um fluxo extremamente dinâmico, de conteúdo, de produção, onde ninguém é só receptor de informação e de conteúdo como era até o final do século XX, quando todo mundo assiste TV, ouve rádio, lê jornal mas não se coloca nesses veículos, hoje todo cidadão é em potencial um produtor de conteúdo, um comunicador, ele pode fazer chegar no mundo o que ele tá querendo expor, então a gente entende que o Fora do Eixo consegue captar muito bem esse momento e estimular todas essas novas formas de comportamento social que estão gerando outras formas de trabalho, outra lógica de mercado. Até um tempo atrás o trabalhador que não tinha carteira assinada era uma exceção no mercado, hoje grande parte desses trabalhadores principalmente na cultura, não tem carteira assinada, porque não existe um CNPJ que dialogue com muitas iniciativas que tão rolando, ou é associação, ou é cooperativa, ou é empresa, agora vem o MEI (Micro Empreendedor Individual) e o micro empreendedor coletivo? Ainda não existe uma reflexão sobre esses novos modelos de trabalho, sobre esses novos modelos de organização em torno do trabalho.

E as cooperativas?  

Rafael: Então, as cooperativas são meios muito engessados, você tem que ter 15 pessoas, é preciso ter um produto, as cooperativas pensam o que? Aquele trabalhador que não tem outra opção no mercado? Eles detém o modo de produção e vão dar um produto muito claro à sociedade, tipo, a cooperativa dos fazedores de sabão, a cooperativa dos seguranças, a cooperativa de limpeza, e hoje a gente não tem um produto específico que a gente produz, a gente produz cultura, a gente produz comportamento e é muito difícil se enquadrar em um CNPJ de cooperativa, o que mais se aproxima da gente hoje são as associações mas elas são também extremamente limitantes, porque se você contrata alguém pela associação você paga quase 50% de imposto, isso inviabiliza a produção, então é um novo modelo, as vezes as leis estão atrás da sociedade, a sociedade está muito a frente do que hoje a nossa constituição consegue abarcar e a gente não vê uma sinalização tão positiva pra atualizar isso, então a gente não vai deixar de fazer porque as leis não estão acompanhando o que a gente tá fazendo, a gente vê que tá dando certo então a gente vai tencionar e criar mecanismo pra que a gente consiga reformular isso, por isso a criação do PCULT, por isso a criação de uma universidade da cultura, hoje a gente vê uma evasão gigantesca das universidades, eu vi esses dias uma matéria de que mais de dois mil alunos que passaram na USP não se matricularam nela, porque a USP é ruim? Não, a USP é fantástica, mas talvez algumas pessoas que estão ali, inteligentes pra caramba e que são protagonistas do que estão fazendo, não conseguem enxergar ali de fato um campo que dialogue com o que eles estão fazendo, você tem uma pesquisa extremamente ampla e você tem que ficar cortando, cortando, cortando, pra se ter um objeto específico, esse é o modelo da universidade, é focar num objeto específico, e hoje a gente entende que os agentes são dinâmicos, a gente é uma população que parou de ler a cartinha e começou a ler o hipertexto onde a cada três palavras você pode mudar o seu foco, você pode ir para um outro lado, você pode entender uma outra área de interesse e de aprofundamento do que você tá fazendo, e a universidade e o conjunto de leis são ainda 1.0, não entendem o dinamismo da quebra de fluxo, da mudança de rumo que a gente não tem medo de assumir, a gente não tem medo de mudar de rumo, por isso a gente tem essa dificuldade de se enquadrar em regimes de CLT, a gente entende que é um regime muito obsoleto, foi criado pelo Vargas em 30, há quase 100 anos.

Leo: Eu acho que isso não acontece só com a gente, isso é muito de todo o campo da cultura, é muito mais fácil hoje pro estado fazer uma licitação pra uma grande empreiteira que passar o dinheiro sem burocracia pra um ponto de cultura que tem que fazer uma prestação de contas enorme, a gente tá vivendo uma discrepância entre as práticas e as leis e então é preciso saber como administrá-las, pra que a gente possa ter um estado que dialogue mais com a sociedade civil como ela tá se organizando hoje nesse mundo pós-industrial.

Vocês estão construindo um outro espaço, sob uma nova lógica, mas a lógica que predomina não é essa, como é que vocês trabalham nesses entroncamentos aí? Como é que vocês fazem para de alguma maneira viabilizar tudo isso apesar de toda essa lógica dominante, que é excludente no sentido do que você mesmo exemplificou aí, numa forma de você ser contemplado em termos de políticas publicas, de você poder se enquadrar em determinado tipo de relação de trabalho, até porque voces não podem formalizar isso, como é que se dá essa articulação?

Leo: No sentido de…?

Em termos de como vocês se articulam com o poder publico, de que maneira vocês se viabilizam, porque financeiramente vocês conseguem criar um determinado meio de sustentabilidade mas creio que não é suficiente para garantir todo esse movimento, quais são as estratégias e como é que vocês pensam isso?

Karol: Eu acho que a gente começa a entender vários campos de sustentabilidade, por exemplo, a gente entende muito que a gente tá trabalhando vários processos que geram muitos produtos, então a gente dialoga muito com o poder publico no sentido de negociar processos, e para o mercado a gente vende os produtos, e assim a gente consegue mesclar essas duas coisas, a gente processa o produto pra conseguir viabilizar algumas captações financeiras mesmo, de recurso. Outra coisa, a gente entende a sustentabilidade política como um grande passo da nossa sustentabilidade, então eu acho até que empiricamente pro pessoal que tá começando a se organizar de maneira coletiva em algum momento ela vai começar a se perguntar como viabilizar, ela vai precisar dar um jeito, então chega um momento que você começa a questionar a lei, chega um momento que você começa a questionar burocracia, chega um momento que você começa a questionar regras, chegam vários momentos que você começa achar que aquilo é inviável, e aí começa um processo de mobilização pra conseguir determinadas coisas, então eu não sei se é isso que você tá perguntando com relação a sustentabilidade mas a gente tá formando um caso de agentes que estão pensando a conjuntura toda, não só o produto mas o processo inteiro, entendendo o produto e entendendo o processo, e daí pra entender processo tem que entender a conjuntura total, e pra entender a conjuntura total você vai ter que entender mercado, entender política, entender todos os aspectos mesmo, que permeiam o fazer, que permeiam o trabalho que você tá desenvolvendo.

Vamos para uma coisa bem específica, que tipo de relação o fora do eixo tem com o ministério da cultura?

Leo: Assim, o fora do eixo, dentro desses oito anos da gestão do Gil e do Juca, na verdade nem só a gente, mas grande parte da sociedade civil organizada teve uma ótima relação com o MINC, no sentido de que o MINC pela primeira vez começou a abrir sua gestão pra debates, acho que a própria constituição das conferências, do conselho de política de cultura nacional o CNPC, que a gente tem quadros (representantes) lá, a própria política que acho essencial, não que sustentou mas que acelerou o nosso trabalho que é a de descentralização de recursos, que contribuiu muito com os pontos de cultura, com a gente, eu acho que houve um campo de atuação e debate nesses últimos anos que fez com que a gente tivesse uma relação saudável, de debate, de negociação, e de realmente nos vermos como atores políticos para discutir política publica no campo nacional. Hoje, o MINC chegou agora, tá se reformulando, a gente tá vendo certos processos meio que retrocedendo, em relação principalmente aos direitos autorais, a questão do Creative Commons, então hoje a gente vai ter que reconstruir a nossa relação com o ministério, assim como todo toda sociedade civil está tendo, então eu acredito que vai ser um processo mas, isso eu acho o mais importante, uma coisa que a gente tava discutindo sobre o novo MINC, eu pessoalmente acho que o MINC tem duas opções, ou ele se enquadra ou ele se enquadra, porque assim, o que ele criou e o que ele apoderou de gente desse país como agente político atuante, e consultor das políticas da cultura, fez com que a gente chegasse no cenário hoje com o que não dá mais pra a gente retroceder, então se ele retrocede no que diz respeito aos pontos de cultura os pontos se reúnem e vão pra Brasília, se eles retrocedem com relação aos direitos autorais os grupos que trabalham com cultura digital – no qual a gente tá inserido – vão se organizar e tentar resolver isso, porque hoje não dá mais pra brigar com a sociedade civil organizada no campo da cultura, eu acho que esse é o grande legado desses últimos oito anos, não tem mais como retroceder.

Certo, você percebe que há uma organização no campo da cultura e que o fora do eixo tá articulado com isso e que é possível então fazer frentes muito maiores, articulando varias áreas?

Léo: Total, a gente está nesse momento inclusive.

Vamos então para a segunda questão, vamos falar um pouco do perfil daqueles que fazem o fora do eixo, pensando especificamente na musica, que tipo de gênero musical o circuito tem contemplado, e também um perfil em termo de faixa de renda, quem são esses que fazem o Fora do Eixo?

Rafael: Tá, em relação ao gênero musical, vamos voltar ao papo do começo de como começou e de como se dá hoje, o Rock ainda tem muita importância, principalmente por causa da história do rock na questão do empreendedorismo mesmo, o “Do it your self” e de como os grupos de rock tiveram essa coisa de “vamos fazer de qualquer jeito”, hoje a gente tem a lógica do “Do it Together” que é um protagonismo visto de uma lógica coletiva, de uma dinâmica de trabalho em rede, diferente um pouco do que se dava antes com o movimento punk, e quando a gente fala que começou na música a gente começou no rock, mas hoje a gente tem uma diversidade de gênero, por exemplo, hoje a gente tem a frente do Hip-Hop Fora do Eixo, a gente tem uma relação muito forte com o Emicida em SP, a gente tá começando a organizar os rappers de alguns locais, então eu acho que os próximos passos se darão no sentido de que o importante não é o gênero em si, o importante é esse sentimento de querer trabalhar em rede, de querer construir a cena, não importa em que gênero você se encontra.

Vocês tem percebido que grupos ou outros gêneros musicais têm buscado FdE ou que isso acontece naturalmente ou você está na verdade projetando?

Rafael: Eu acho que outros gêneros virão naturalmente como já estão vindo, eu acho que o exemplo do Hip-Hop é o mais sintomático nesse sentido de a gente pensar como que a gente pode contribuir dentro de um campo e de um movimento que já tem anos que atua no Brasil, de organização e inclusive com um pensamento de movimento social mesmo, e daí a gente começa a bater numa relação com outros movimentos, hoje se tem uma relação muito forte com a CUFA (Central Única das Favelas) em vários lugares do Brasil, em Cuiabá, a gente tá começando agora em São Paulo, essa lógica que a gente colocou que paramos de nos ver como apenas produtor de rock e que a gente se vê enquanto militante de movimentos sociais é uma coisa pra que cada vez mais a gente começasse a dialogar com outros campos, e outros movimentos, e outros grupos que já tinham sua capilaridade, seu pensamento político, seu pensamento social de transformação etc.

Isso quer dizer que o fora do eixo tende a incorporar outros grupos sociais?

Rafael: Com certeza, a gente responde muito essa pergunta, com relação à questão de classe, tanto que eu acho que é um dos grandes…

Você acha procedente a pergunta?

Rafael: Acho legítimo perguntar isso, a gente não vê problema nenhum, a gente sempre responde isso porque realmente as pessoas que estão inseridas hoje no Fora do Eixo vieram da classe média, a grande questão é como a gente se vê hoje na questão de classes, porque assim, com todas aquelas ferramentas de sustentabilidade que a Karol pontuou, o caixa coletivo, a própria relação que a gente tem com a propriedade e todo aquele sistema, aquela dinâmica de trabalho em rede colaborativa que a gente organizou, a gente acabou se resignificando, como atores sociais dentro de uma classe na sociedade, então, por exemplo, a própria questão hoje de ter vindo da classe média não é mais um problemas depois que a gente resignificou isso na gente mesmo, a própria relação nossa com o trabalho coletivo, morar junto numa casa, não ter vinculo com a propriedade, ter um caixa único no qual a gente retira o que a gente precisa, eu acho que a questão do caixa coletivo responde essa pergunta muito tranquilamente.

Perguntando pro Léo, você acha que você teria uma alternativa para se viabilizar economicamente que não fosse essa, vivendo dessa forma que você vive hoje?

Dentro do trabalho que eu tenho hoje é impossível, eu acho que essa é a única maneira que o trabalhador do campo da cultura, que tem esse pensamento de um trabalho dentro da área digital, dentro de uma dinâmica em rede, corporativa, associativa, dentro de um pensamento de transformação social e política, dentro do campo da cultura teria para atuar, eu não vejo como atuar nisso sem estar dentro dessa lógica.

Mas você já tinha essa perspectiva antes ou o Fora do Eixo é que provocou?

Léo: Não, assim, a gente trabalhava já no campo da cultura, eu a Karol e o Rafa a gente trabalhava dentro da Universidade, a gente era carteira assinada, a gente tinha CLT, Férias, 13°, então a gente começou militando no campo da cultura há um bom tempo já, o que aconteceu foi que fora do eixo mostrou essa outra lógica e ela se mostrou muito mais sustentável, não só no campo econômico, mas no campo político, no campo das relações pessoais, no campo do trabalho, que fez com que eu sentisse – você perguntou pessoalmente – que a médio ou longo prazo eu só conseguiria viabilizar esse tipo de trabalho assim.

Vamos agora para aquela terceira questão, eu queria que vocês falassem um pouco das impressões sobre Sergipe, sobre como o Virote (coletivo) – que tá vinculado ao circuito – está organizado, como ele sobrevive, de que maneira ele tá se articulando com outros coletivos e qual a dinâmica dele.

Léo: Eu acho que tem duas questões aí, é o virote e Sergipe, essa é a primeira vez que a gente vem pra cá (Sergipe), e a gente ficou extremamente impressionado com a estrutura que tem Aracaju, poucas cidades têm uma universidade, uma rádio, e uma TV pública, fóruns organizados, e gente querendo discutir e trabalhar com cultura como aqui, então o que a gente percebeu é que primeiro não dá mais pra as pessoas ficarem reclamando, por mais complicado que seja trabalhar no seu local. A questão que a gente tá vendo que tá faltando aqui é a articulação entre os atores, que é o que a gente tava debatendo lá na rádio, então o Virote tá começando esse trabalho de articulação pra contribuir nessa construção da cena local (ó, perguntaram aqui na internet como entrar no Fora do Eixo, é só vê se tem na sua cidade um coletivo do fora do eixo e tente articular com ele como que você pode contribuir dentro desse processo, fala de que cidade você é e a gente passa o coletivo da sua cidade ou do seu estado), quê mais?

A gente tava falando de Sergipe.

Léo: Sim, então, o que a gente espera e acredita é que o virote vai trabalhar na articulação de toda essa estrutura dos atores locais aqui, a gente viu que é um cenário extremamente favorável, você tem poucos lugares onde se tem essa estrutura, o que realmente tá faltando é uma articulação de todo mundo, pra que os fóruns comecem a conversar, comecem a se conhecer, comecem a trocar inclusive produtos pra que eles possam ter projetos em conjunto, desde isso até o fato deles começarem a se juntar pra começar a discutir política publica pro estado. Sergipe não tem uma política cultural, não tem um conselho atuante, paritário, deliberativo, fundos pra que possam sair editais, leis de incentivo que funcionem de uma maneira para que as pessoas comecem a captar, e é isso, o que tá faltando aqui é desde um começo de uma sistematização de troca pra fazer parcerias e um mapeamento de todo mundo que tá trabalhando aqui até essa construção política no Estado e no Município que aqui não tem ainda.

Em relação às bandas que fazem parte do Virote, vocês acompanham que resultados eles tem obtido, nesses termos o que vocês já vislumbraram com o Virote aqui?

Rafael: Assim, na verdade o que a gente faz é um acompanhamento muito forte de todos os coletivos, de todas as estruturas que a gente tem construída no país todo, a função do virote é passar um diagnóstico de como a situação local tá, pra a gente, dentro dessa inteligência coletiva que a gente fala, contribuir com ele no processo de como construir essa cena local, então por exemplo, a gente já passou dentro da rede por muitas adversidades em relação com os parceiros, se hoje o Rick tem algum problema de alguma natureza com a banda local então ele acionando o ponto de articulação nacional ele vai ter a resposta ou as possíveis respostas pra esses problemas de maneira muito mais rápida, é exatamente isso que a gente chama de inteligência coletiva, você pode ver andando e conhecendo o país todo é que os problemas não são diferentes, eles são muitíssimos parecidos em todo local, então o que a gente acredita é que esses problemas locais, estando mais próximo de todos os coletivos a gente começa a confluir as cenas de uma maneira muito mais inteligente, porque a gente já passou por esses problemas em outros locais, isso acaba ficando muito mais rápido, a inteligência coletiva produz rapidez e velocidade.

Você poderia exemplificar esses problemas? Que problemas são esses que são comuns?

Rafael: Bem, no Massa coletiva que a gente fazia parte a gente tinha o problema de entender quem era do núcleo duro e quem era colaborador, então a gente passou de um coletivo de trinta pessoas pra um coletivo de sete, depois de nove, porque a gente começou a acionar na inteligência coletiva quem já tinha passado por certos problemas de dinâmica interna e isso fez com que a gente corresse muito mais rápido pra entender a estrutura nossa.

E vocês identificam isso em outros coletivos.

Rafael: Em todos. É muito comum quando a gente fala da estrutura dos coletivos, tem as pessoas que realmente tem interesse de trabalhar em outros modelos, mas de fato não estão preparadas, não querem para a vida trabalhar em um modelo diferente, às vezes têm muitas inseguranças quanto a um trabalho que não é registrado, não tá na CLT, não tem essa segurança de um plano de saúde ou da sua aposentadoria, enquanto a gente tem umas pessoas que estão de fato entendendo que existem hoje novos caminhos e que aos poucos a sociedade vai também se adequar para contemplar todos esses novos caminhos e modelos de trabalho, e aí não dá pra ficar engessando, e quem de fato queria se entregar e desenvolver um processo de trabalho, em torno de quem tava esperando a coisa dar certo pra se jogar de cabeça ou às vezes queria contribuir, mas não de fato como projeto de vida, então a gente diferencia entre núcleo durável do coletivo e os colaboradores, e as vezes é muito difícil, muita amizade envolvida, tem chegar e falar pro cara que ele não é o coletivo, que ele é um colaborador desse coletivo, e esse é um processo muito sintomático porque era um grupo de quinze ou dezessete pessoas onde de fato três ou quatro trabalhavam assiduamente no coletivo, entendiam aquilo seu trabalho, e outros tantos que quando dava ia, e só depois das oito porque tinha seu emprego, sua segurança financeira, e opinava, tinha tanta legitimidade quanto quem tava precisando daquilo de fato para se viabilizar, então nesse contexto surge a necessidade de perguntar “você quer trabalhar? prestar dedicação exclusiva ao processo? legal tá dentro, vamos viabilizar, senão, você é um colaborador, você não vai ter o mesmo direito, a mesma legitimidade e o mesmo peso de quem de fato tá entregando a vida pra isso” e aí que a gente determina o lastro para a fala, cada um tem o seu lastro para garantir sua fala, então mesmo sendo um processo coletivo não é bagunça, tem gente que fala “ah mas isso não é coletivo então, eu não posso opinar” Lógico que pode opinar, agora sua opinião não vai ser tão legítima quanto a de quem vive isso, e é entender que existe sim uma hierarquia mas é uma hierarquia dada pela própria pessoa, pelo quanto ela participa, quem de fato está entregue ao processo trabalhando 100% nisso, independente se rende mais ou menos tá de fato se entregando e gente tem também as diferenças do tempo de formação de cada um.

As bandas podem procurar vocês por um objetivo que é legítimo que é o de ter novos espaços pra poder tocar, que tipo de orientação vocês dão pro pessoal que está lá na base do coletivo, como é que se lida com isso?

Karol: Hoje a oferta de bandas e de artistas é muito maior do que a oferta de espaço, então pesa muito também a questão do lastro, a banda pode ter ou o lastro do publico que ela já formou independente dos mecanismos que ela utilizou pra formar o publico, ela tem esse lastro garantido porque conseguiu mobilizar o cenário cultural em torno da criação dela, então essa banda com certeza vai ter muito espaço pra circular ali na nossa plataforma, nos nossos festivais, e é lógico que a gente vai viabilizar na medida que for possível, porque as vezes não dá, não dá pra pagar um cachê que a banda pede de 3,000 reais e as vezes a galera não consegue tirar 4,000 reais, e tem que pagar o som, segurança, a faxina, a casa e tal então ou você baixa ou não dá pra tocar com a gente, e é muito legítimo porque a gente não vai também ficar só tomando prejuízo, a gente tem que investir nos posicionamentos da marca nos coletivos também, e as bandas que ainda estão no inicio da carreira a gente estimula elas a de fato ser um empreendedor, tipo “você acredita realmente que a sua banda é o seu trabalho? você quer de fato viver disso? então você tem que investir nisso” as bandas reclamam muito de profissionalização mas não querem de fato se entenderem como empreendedor, um comerciante pra abrir o seu negócio não basta alugar a casa ele tem que comprar os produtos, tem que ter uma diversidade fantástica, investir na publicidade, tem que ir no corpo a corpo, muitas vezes o dono da loja vai pra rua panfletar, e a banda muitas vezes quer se colocar numa situação cômoda, o que a gente aconselha pras bandas e pro diálogo dos coletivos é de que as bandas tem que trabalhar tanto quanto o produtor pra viabilizar o cenário local e a sua própria carreira, e no caso da sua própria carreira é mais que o produtor, que é a carreira dela que tá em jogo, então ela tem que entender que se ela conseguiu formar um publico aqui nessa cidade então vamos trabalhar pra encher a casa junto com o coletivo pra que entre um recurso pra a banda pra ela reaplique esse recurso no seu mercado, e reaplicar no seu mercado é pagar pra sair de Aracaju pra ir pra Maceió, que lá em Maceió talvez ela seja desconhecida, e lá, se ela realmente confia no seu trabalho e a gente confia muito no trabalho do coletivo de Maceió ela vai somar esses esforços pra formar o seu publico lá, e na primeira vez ela vai investir, assim como o coletivo vai investir talvez seja um prejuízo pros dois, mas a gente entende que não é um prejuízo, é investimento de fato, porque a hora que ela voltar já vai ter sem pessoas que pagaram pra ver e gostaram e vão falar pra três amigos cada um, e elas vão voltar com quatrocentas pessoas, e isso vai viabilizar que ela vá no 0x0 pra que ela volte depois de um mês ou dois meses e consiga ter um cachê razoável que viabilize que ela saia de Maceió e vá pra João Pessoa, então a nossa plataforma hoje permite que a banda que está querendo investir na própria carreira circule o Brasil inteiro, mas a gente fala que não vai ser o Brasil inteiro com hotel, com casa cheia ou com um publico dançante, é com a limitação de cada cidade. A gente tem um diagnóstico claro de falar pra banda “olhe, tal cidade hoje você consegue ter cem pessoas, agora tal cidade, independente de quem tiver em cima do palco vai quinhentas, agora tal cidade e tal estrutura é assim, você tá afim de formar o seu publico? ou você está afim de fazer uma circulação extremamente confortável? porque se for uma circulação confortável você vai no máximo pra essas cidades aqui, se você quer investir e formar o seu publico você vai passar uns perrengues, vai comer o strogonoff do broder que vai fazer lá na casa dele, vai dormir no chão da sala, e é muito louco porque a banda as vezes fica nessa situação de achar que tá sendo trapaceada e não vê isso aqui, que gente tá aqui em Aracaju dormindo no chão da sala, pra conseguir viabilizar que o coletivo aqui consiga aproximar mais pessoas, tenha um corpo maior de trabalho, e consiga criar um cenário mais positivo pra a gente poder falar pras bandas “ah, você vai lá pra Aracaju você vai ter quinhentas pessoas com certeza na casa.”

A gente está tendo aqui (Aracaju) o Grito Rock, eu tive a oportunidade de conhecer vocês e a gente tá conversando aqui agora, como é que isso foi articulado, como é que Aracaju entrou nessa programação? É por causa da existência do virote aqui? Como é que aconteceu isso? Fala de como é o Grito Rock.

Karol: O Grito Rock nesse contexto que a gente vê aqui é que as iniciativas que vão dando certo a gente tem que replicar ao máximo, e essa iniciativa surgiu lá em Cuiabá, a galera fez um festival no carnaval pra galera que não gostava da folia, e isso deu um retorno bacana, era um novo espaço pras bandas tocarem, era um feriado, as pessoas muitas vezes tinha a oportunidade de circular mas não tinham espaço pra isso, e aí algumas cidades começaram a fazer, e ele foi virando um festival integrado, e assim, a produção é autonomia total do ponto que se cadastra pra fazer, tem o edital do G.R (Grito Rock) e todos os pontos do FdE tem o compromisso de fazer o G.R, é uma das poucas ações que a gente entende como vital, a gente precisava criar a marca de identidade entre os coletivos, então é isso, a partir do momento que o Virote conheceu a rede, dialogou e falou que queria fazer parte dela então é um pressuposto que ele vai fazer o G.R e aí não é obrigatoriamente que tem que ser no carnaval então ele vai de fevereiro à março, lógico que por exemplo, Salvador também é nesse final de semana, é inviável fazer o G.R lá no carnaval, por causa do axé, então a gente tem essa margem pra trabalhar e o virote falou que queria fazer o G.R, e aí a gente cria uma série de campanhas, em torno de uma ação como essa nacional, então a gente abre o edital, todos os pontos fazem mas os produtores interessados em fazer também se cadastram e fazem, e aí é liberdade de curadoria total, a gente até estimula o diálogo entre cidades próximas pra viabilizar com maior facilidade, mas é a autonomia do produtor fazer, e a gente tem uma série de campanhas em torno do festival pra deixar ele mais interessante, uma delas é trabalhar as mesas de debates, trabalhar a informação, na medida do possível que já tá mobilizando o cenário em torno do evento é tentar trazer também a formação conceitual, o debate, e aproximar as pessoas da cidade em torno da nossa lógica de trabalho, aproveitando a mobilização que o festival traz. Outra campanha é “transmita seu vídeo” a gente tem tutoriais na web, tanto de web TV quanto web rádio, que consiga também dar mais visibilidade pra o que o grupo tá fazendo na cidade, a gente tem a campanha do monte a banquinha, a gente entende que hoje boa parte das vendas de CDs tá no pós show, isso não vai pagar o cachê da banda inteira mas vai garantir a conta de água da galera quando chegar em casa, vai garantir o translado pra próxima cidade, então viabiliza o mínimo de recurso então a galera monta a banquinha. A gente faz a campanha do Grito Doc que é um documentário integrado do registro do festival, e vai fazendo uma série de campanhas pra que os coletivos possam aderir ou não as campanhas, tem o G.R ambiental que é uma campanha de compartilhar todos os dados do evento pra que a gente consiga fazer um plantio de arvores pra compensar a emissão de carbono, alguns estados já viabilizaram espaço para o plantio, então é uma série de campanhas que a gente faz pra tentar deixar cada vez mais sustentável pra todo mundo, sustentável pra sociedade, pras bandas com a banquinha e com articulação dos produtores das cidades próximas, pra produtores que vão cada vez mais dar visibilidade e conseguir atrair cada vez mais mídia espontânea e mais gente em torno do que ele tá desenvolvendo. Aqui é uma iniciativa do Virote, eles que propuseram, aproveitando que a gente ia tá pelo nordeste de trazer pra cá pra fazer o debate, e lógico também que a gente veio porque a gente entende que quanto mais a gente tiver a oportunidade de conhecer o cenário local e estimular novos agentes melhor pra a rede, melhor pro coletivo local, melhor pra todo mundo. Muitas vezes o Rick e a Elma falando “ei galera o fórum vai ser assim e assim” a galera não ouve, agora vem qualquer um de fora mesmo que ninguém saiba quem é e as pessoas dão ouvido, que é uma pessoa que vem de fora.

Isso não acontece só aqui?

Karol: Não, em todos os lugares, a gente em São Carlos tem dificuldades enormes com o preconceito da galera, aí vai o Rick pra lá e fala com a galera e a galera dá ouvido, ele é o cara que veio de Aracaju pra falar aqui, então isso também na rede ajuda muito, a rede investe pra que vá alguém que consiga viabilizar pra contextualizar.

Pra encerrar não, mas pra deixar um ponto e vírgula, porque a gente vai se encontrar de novo, tem alguma coisa que vocês queriam deixar registrado?

Léo: Eu acho que a gente pode começar – partindo desses projetos como é a Universidade da Cultura Livre – a estreitar o vinculo com o pessoal que está dentro da universidade, eu acho que talvez uma fala final tenha mais sentido assim porque a gente fala que a gente tá mapeando os professores progressistas, porque a gente vem da universidade também e lá em São Carlos, por exemplo, a gente teve problemas pra a gente poder ter um diálogo tranquilo, horizontal, tipo sentar e conversar e querer construir coisas juntos com professores e a gente teve sempre um pouco de dificuldade, então se a gente tem alguém aqui na Federal de Sergipe que tá a fim de conversar, de sentar com o coletivo local, de sentar com os fóruns, sentar com o grupo que tá organizando, com os fazedores de cultura da cidade, é extremamente rico inclusive pra a gente começar a repensar as metodologias e os mecanismos da universidade publica brasileira, então eu acho por exemplo que um projeto como a universidade da cultura por exemplo que a gente foi lá no fórum em salvador pode ser um caminho bem interessante pra que a gente possa ter um diálogo mais institucional talvez, no sentido de que a gente possa trocar realmente tecnologias pra a gente começar a criar essa rede de pensadores de professores, de educadores populares, de movimentos sociais, de pontos de culturas, porque eu acredito que a gente tá em um momento pra repensar certas tecnologias, certas estratégias da forma de organização no mundo e no Brasil e a gente precisa começar a dialogar mais e a universidade publica é esse espaço e ela tem que ser esse espaço de observação, de ação, e de ousadia e de troca com a sociedade. A gente estava ontem lá na UFS e a gente viu o cenário da rádio Universitária, e uma rádio universitária não pode ficar fechada, ela tem que ser aberta pra todo mundo, a universidade tem que abrir no final de semana, os laboratórios tem que ficar abertos, a universidade tem que se abrir cada vez mais, a gente precisa passar por um processo de radicalização da coisa publica, e eu acho que um projeto como a UNICULT tem como permitir que a gente converse cada vez mais fortemente desde contribuir na pesquisa da cadeia produtiva da música até pensar novas formulas de metodologia e troca entre universidade e sociedade.

Rafa?

Só uma coisa, até pintou uma pergunta assim “ah, como um artista solo que paga músicos, viabiliza sua circulação” bem, a gente entende que a gente tá numa era da colaboratividade, a gente sai daquele movimento do “do it yourself” pra uma nova geração do “do it together” então a gente entende que o primeiro passo pra quem tá querendo contruir e tá sozinho é se abrir e se associar, e fazer junto, eu acho inviável pra alguém que hoje tá começando ser o solista, constrói junto, colabora, tentar deixar de ser esse ser solitário pra se associar porque tem gente interessada em construir junto, interessada em trocar, e pra quem tá sozinho tá sendo cada vez mais difícil, porque ou você se viabiliza, ou você se associa, a gente fala que hoje pra você ser egoísta você tem que trabalhar coletivamente, pra viabilizar o seu você tem que se associar com quem tá perto, então é importante a gente entender que pra fazer diferente é necessário se inserir num outro contexto socio-politico-cultural, muitas vezes vai bater cabeça, vai encontrar dificuldade, vai ter que ceder mas aí faz parte de um processo de construção, a gente é uma geração que nasceu num tempo de revolução, da revolução digital tão significativa pro comportamento social quando foi a revolução industrial, pelo menos é a compreensão que eu tenho, e eu tenho certeza de que o cara que viu a cadeira que era uma só e de repente tinham cem iguais ele não se ligou de cara que ele tava vivendo uma revolução industrial, mas a sociedade foi percebendo isso e remodelando-se a esse novo sistema, e a gente tá vivendo isso, e quem tá mais aberto a se entregar pra esse novo momento tá mais propenso a crescer e se inserir nessa nova sociedade.

 

Transcrição do áudio: Allan Jonnes.

Edição: Allan Jonnes.

Crédito da foto: Imagem de divulgação.

 

 

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