Multimídia

João Liberato, professor do Núcleo de Música da UFS

Entrevista realizada por Verlane Aragão, no dia 03 de Fevereiro de 2011, com o instrumentista e professor do Núcleo de Música da UFS, João Liberato.

grande-joao_liberato_divulgacao

Primeiro, eu gostaria que você falasse seu nome completo, sua atividade profissional.

Meu nome é comprido um pouquinho. O meu nome de batismo é João Rios Souza Liberato de Matos, e no momento eu sou professor do Núcleo de Música da Universidade Federal de Sergipe, e desempenho a função de professor de algumas matérias além de trabalhar na coordenação. Mas, ao longo da minha história com a música eu já fiz outros tipos de trabalho. Eu vim aqui para Aracaju para trabalhar na Orquestra Sinfônica do estado. Eu toquei lá durante três anos, depois passei no concurso para professor substituto, depois para efetivo e acabei enveredando mais para a carreira acadêmica.

Certo. Eu queria dividir essa entrevista em dois momentos. Então eu queria que você fizesse sua fala na seguinte direção: primeiro eu gostaria que você falasse da sua relação com a música, e tratasse diretamente do seu percurso na música, passando pela sua atuação na Orquestra Sinfônica, e hoje no curso. E aí, quando você chegasse no curso, eu queria que você falasse sobre o que  é o Curso de Música hoje no estado, e o que você vislumbra do curso mais adiante. No segundo momento eu gostaria que você comentasse sobre suas impressões da produção musical em Sergipe, do fazer música aqui no estado, o que você observa, e o que você vislumbra para mais adiante.

Eu tive desde cedo uma formação mais voltada à música sinfônica, dentro de uma família que tem uma certa tradição dentro da cultura, e comecei a estudar música na Universidade Federal da Bahia, dentro de uma universidade que até pouco tempo atrás era muito ligada a tradição da música erudita. Era uma escola de música que foi fundada por estrangeiros basicamente, e depois ao longo dos anos foi  sendo sucedida por músicos brasileiros, principalmente baianos, e entrou naquele processo de dialogo com a música popular muito sutilmente. Então, depois de algum tempo de iniciação musical e do período preparatório para o vestibular eu entrei na graduação e tive uma formação de flautista de orquestra. Estudei questões de música sinfônica, uma parte de música de câmara, e coisas do tipo, muito mais ligada a essas questões de música erudita. Mas sempre tive atuação também na música popular. Gravei com grupos populares lá de Salvador boa parte das minhas gravações que eu gosto mais foram de música popular e também de música erudita, dentro de um repertório de música de câmara. Tem também o repertório de música de câmara, que eu toco violão, toco piano, coisas do tipo. Então, eu vim aqui para Aracaju para tocar na Orquestra Sinfônica do estado. Na época havia uma necessidade, isso foi em 2005, de uma pessoa que tocasse na orquestra sinfônica e  que pudesse dar aula no Conservatório, dentro de uma movimento da Secretária de Cultura do Estado, naquela época uma série de músicos vieram de várias regiões do país, foi um momento  de reformulação da orquestra, que na verdade começou um pouco antes em 2004-2003 por aí. Outro período importante que a orquestra tinha vivenciado foi, se eu não me engano em 1995, quando ela realizou um concurso para a renovação do quadro de músicos. Só que foi um projeto que não deu muito certo, porque os músicos tinham um salário muito baixo, um salário mínimo. E aí, a partir de 2003-2005 o Secretário de cultura na época, José Carlos Teixeira, começou a fazer algumas inciativas focadas na música sinfônica. Então, eu vim para cá, fiz um teste, passei e comecei a tocar na Orquestra Sinfônica e dar aula no Conservatório, e passei três anos dentro dessa atividade de Orquestra Sinfônica, depois eu saí da Orquestra Sinfônica e fui ser professor no Conservatório de Música, e paralelamente eu comecei a dar aula de música aqui na Universidade também, como professor substituto, nesse curso que é o primeiro curso de nível superior de música aqui no estado, e aí após um ano e meio eu passei no concurso para professor efetivo, e sou um dos professores fundadores do Núcleo de Música, porque nós ainda não somos um departamento, porque somos um curso pequeno. E, esse curso de Música da Universidade Federal, eu acho que ele veio estabelecer novos paradigmas para história da música de Sergipe, em alguns aspectos. Eu acho que Sergipe é um estado rico de história musical. A contribuição do Núcleo de Música é uma contribuição para o desenvolvimento acadêmico que antes não havia, se não de forma esporádica aqui ou acolá, com uma pessoa ou outra. Então, é um curso que, por ser um curso de licenciatura pretende desenvolver agentes que possam trabalhar para  desenvolver um pouquinho melhor a cultura musical no estado, de uma maneira geral. Eu não diria que o curso de música vai mudar drasticamente a cultura musical sergipana, às vezes nem incrementar um pouco, porque essa cultura musical já existe desde muito tempo aqui no estado. É uma cultura musical que se desenvolve em um período, assim, num arco de tempo que a gente pode retornar, por exemplo, ao século XIX, com bandas filarmônicas, bandas militares, e aí depois começa a entrar numa era mais popular da música, tem um cenário de gravação aqui já antigo, com Clemilda,  Josa – Vaqueiro do Sertão, e agora a partir desse ano 2000, você começa a entrar mais nesse movimento focado na academia, ao estudo científico, ao desenvolvimento de projetos relacionados ao ensino, uma formalização, digamos assim, do ensino da música. E, eu acredito que esse desenvolvimento do ensino acadêmico da música, aqui em Sergipe, pode ajudar em alguns aspectos.

Qual é o perfil do aluno que ingressa no Curso de Música?

É bem heterogêneo, como qualquer curso de música no país. O déficit maior que a gente tem, hoje em dia, é de uma preparação dos alunos desses elementos mais básicos da cultura musical escrita. Boa parte dos alunos não tem um desenvolvimento bom de leitura, de partitura. Boa parte dos alunos não tem conhecimento teórico musical desenvolvido, mas uma boa parte deles já tem uma prática.

Então há muita gente já envolvida com a música, que está fazendo música e que por conta disso acaba indo para o Curso de Música?

Isso, muita gente. A gente por enquanto ainda tem muitas pessoas que entram aqui para adquirir conhecimento elementar, que já deveria ter sido ensinado antes. Isso por conta de não haver, de uma maneira mais disponível para as pessoas hoje, um curso de música que possa começar numa idade mais jovem, onde ela possa desenvolver uma leitura musical, ou o aprendizado de um instrumento de uma maneira mais consistente. É um papel que poderia ser feito de uma maneira mais efetiva pelo Conservatório de Música. Só que o Conservatório de Música, por uma série de questões, ele não consegue cumprir completamente com esse papel. Então, a gente, de certa forma, acaba tendo que reforçar um pouco mais esse aprendizado de elementos básicos de escrita musical, estruturação musical, para depois a gente desenvolver um pouquinho mais essa parte pedagógica. Porque necessariamente, o ensino da música nos dias atuais tem que passar por isso, da escrita, do desenvolvimento assim da música, também por esse aspecto mais teórico.

Esses alunos, eles têm um conhecimento sobre a cultura do estado, sobre a cultura popular do estado?

Sim, alguns deles. Boa parte desses alunos já trabalha com música popular há muito tempo, alguns deles envolvidos, inclusive, com música regional, com música folclórica, e outros muito ligados à música popular mais atual, que é uma música que envolve alguns aspectos da cultura musical norte-americana. Tem muitos alunos de banda de rock e que estudam no Curso de Música, a Ferraro Trio, a Snooze, a The Baggios, alguns integrantes dessas bandas estudam no curso. Tem muitos músicos do cenário pop atual que estão dentro do curso de música. Tem alguns alunos bem mais ligados a cultura filarmônica, quem vem do interior do estado que ainda tem essa tradição muito forte. Alguns alunos já são professores no mercado atual sergipano há muito tempo, e  que estão procurando simplesmente um diploma para atuar dentro desse mercado mais formalizado. Mas, as gerações são bem divididas. Nós temos a primeira geração do Curso de Música, que foi a primeira turma em 2007, ela era formada, na grande maioria, por alunos que já atuavam profissionalmente na música há muito tempo, inclusive músicos de uma idade já mais avançada, que já eram professores do Conservatório, da FUNCAJU, e etc. Professores de música, que de um modo geral queriam ter um diploma, e que de alguma maneira não puderam ir estudar em Salvador, ou em Alagoas e Pernambuco, e encontraram a oportunidade de estudar aqui, mas isso de um modo geral, apesar de ser uma turma heterogênea com músicos novos, que entraram nessa turma aí também. Agora a gente começa a ter, a partir do ano passado principalmente, músicos de uma nova geração, pessoas que estão entrando com uma idade mais baixa do que essa turma inicial, e assim, estudantes profissionais. Então são pessoas que têm até mais disponibilidade e dedicação ao curso. Então o perfil está mudando gradualmente, e aos poucos a gente está afunilando, a concorrência para o curso tem aumentado, então,  a gente está já a partir desse ano podendo exigir um teste de conhecimento específico da área da música, que fez com que algumas pessoas que antes conseguiam entrar sem nenhum conhecimento de música, não pudesse mais entrar no curso, então a gente está cada vez mais tentando pegar esse músico que já tem uma base, e simplesmente dar a ele uma formação de professor, e não ter que dar a ele aquela formação básica de músico, e depois vir aquela carga de conhecimento mais relacionada ao ensino.

E esses alunos depois do ingresso no Curso de Música, eles vão atuar onde? Você acha que a formação universitária, em alguma medida, vai influenciar aqueles que produzem música?

Eu acho que afeta sim. Essa formação de nível superior, no caso da arte, porque a gente não é uma formação assim tão pragmática no tipo de atuação, ela se desenvolve dentro do aluno, no seu processo de auto formação, de várias maneiras. Então, com certeza vai dar aos alunos um pouquinho mais de ferramentas relacionadas ao ensino, um pouquinho mais de conhecimento a respeito de uma sistemática, à respeito do conhecimento em pedagogia, psicologia relacionada ao desenvolvimento da aprendizagem, da cultura musical de um modo geral, da história da música, e etc. E, essa formação ela também possibilita o desenvolvimento estético do aluno, porque o aluno também tem que abranger o universo um pouquinho além do que ele já tinha. Então, por exemplo, a gente costumava a receber um aluno que tinha um conhecimento muito bom de pop rock, mas quando ele entra no curso de música ele tem que entrar nesse universo da música sinfônica, da música regional, ele tem que abrir um pouco mais o escopo dele, porque eu acho que isso é uma coisa saudável para o desenvolvimento do aluno, porque o universo acadêmico tem que ser eclético, e abrangente, e nesse sentido é importante.

Sobre a formação que é dada pelo curso, há uma exploração, uma interface, com outras áreas de conhecimento, com outros cursos?

Existe. De cara, o fato dos alunos dentro de uma universidade, dentro de um mesmo campus estar em contato com alunos de outras áreas já acaba estimulando neles o desenvolvimento de conhecimento relacionado a outras áreas, e não somente à música, porque aqui eles estão em contato com alunos de Economia, Direito, Sociologia, então, ele já se insere em um universo de conhecimento muito mais amplo, que necessariamente na formação de um professor a gente já tem algumas matérias ligadas à psicologia, pedagogia, ao desenvolvimento de técnicas de pesquisas científicas, e etc., então ele tem que abrir mais um pouquinho a cabeça dele para esse tipo de conhecimento. À respeito da perspectiva sobre a atuação desse profissional, como o curso de música é um curso que cada vez mais procura dar uma formação ampla, porque a gente não tem somente essa formação do currículo, a gente tem os nossos eventos, os simpósios, os fóruns, temos constantemente apresentações musicais com convidados que vem de outras universidades para tocar aqui, a gente estimula os alunos para que eles participem disso, de congressos, de eventos artísticos e científicos, então, aos poucos a gente vai tentando dar essa formação para o aluno mais ampla e global. Então, o aluno seja qual for o tipo de atração que ele tenha no mercado, como guitarrista de uma banda de jazz, ou zabumbeiro de uma banda de forró, a gente quer que ele saia daqui do curso com uma visão mais ampla aqui do mundo. Mas, especificamente voltado para o mercado de ensino da música. A gente tem agora essa nova lei, que foi implementada a duras custas, que as escolas particulares  e públicas do ensino fundamental, têm até o final de 2011 para ter a matéria de música inserida ao nível dos componentes curriculares. Então, a gente trabalha dentro dessa perspectiva de abertura de novos postos de trabalho para os músicos egressos nesse curso de licenciatura em música. Ano passado, por exemplo, a gente realizou um evento bem voltado para isso, foi um simpósio voltado para essa nova lei, que pretende-se que ela seja aplicada, que você sabe que nem todas elas são aplicadas, têm muitas escolas que não têm nem professor de matemática, quem dirá um professor de música. Então, a gente começou no ano passado a fazer um trabalho de aproximação com o poder público responsável pelo ensino nessas escolas, no caso Estado e Prefeitura, para saber quais são as perspectivas dessas pessoas responsáveis pelo ensino dessas escolas que incluía a música como um componente curricular, e de início as nossas impressões não foram muito boas. A interpretação das leis deles é a mesma interpretação da lei antiga, que seria um professor que ensinaria música, artes plásticas, uma série de atividades, e a música estaria inserida nelas, como se fosse um professor de educação artística. Mas, eu falei que veio justamente para tentar substituir isso, e colocar um professor da área para se responsabilizar pelo ensino musical, então, a gente tem feito um trabalho de aproximação com esses órgãos do Governo para conseguir sensibiliza-los para a importância do ensino da música. Esse ano, por exemplo, a gente já começou a ter alguns alunos de PIBID dando aula em algumas escolas públicas, porque o panorama atual desse mercado de trabalho de ensino de música nas escolas como ensino complementar é o seguinte, nas escolas particulares a maioria tem professor de música, mas nas escolas públicas, de um modo geral, não existe. Então esse trabalho do PIBID tem facilitado porque a gente já tem 20 bolsistas, e esses bolsistas já estão começando a desenvolver um trabalho de ensino musical tanto em escolas públicas quanto em escolas particulares, então, está começando a criar uma cultura do ensino de música dentro dessa etapa de formação das pessoas, e isso é o mais importante. Na verdade, é essa cultura de ensino da música que vai fazer com que as escolas implementem o curso de música, não é a força da lei que vai fazer isso, porque a gente vive em um país que muitas das vezes as leis não são obedecidas, então é realmente preciso sensibilizar as pessoas da necessidade, da importância da música, e dos aspectos positivos que o ensino da música pode ter na formação de uma pessoa.

Isso seria também pensar em termos de formação de público, não é?

Sim. É uma discussão muito grande. A partir do momento que você tem uma lei que obriga as escolas a terem o ensino da música, como é que você vai implementar esse ensino? Será que é com um professor que tenha uma proximidade muito grande com Rock in Roll chegar lá e tocar rock para os alunos dele e ensina-los a desenvolver uma apreciação musical para esse estilo musical? O teria que ser um professor extremamente versátil, que trabalhasse também com a música regional, e trabalhasse nessa tradição da música sinfônica? Aí começa-se a se discutir qual o tipo de desenvolvimento das atividades musicais que um professor tem que ter em sala de aula. De um modo geral como a gente tem uma carência muito grande na formação dos professores, a gente tem procurado desenvolver nesses professores um tipo de atuação mais  eclética possível, então, os professores têm que saber, de um modo geral, técnicas de ensino da música relacionadas ao instrumento, pro exemplo, têm professores que tocam muito bem piano, tem professores que podem desenvolver uma atividade com flauta doce, outros podem desenvolver uma atividade com percussão, e dar a esses professores a possibilidade desses professores de trabalharem dentro de um universo mais amplo, então, o professor que saí aqui do curso de música tem que tocar um pouco de violão, de piano ou teclado, de flauta doce, e percussão. Então, dentro desse universo de opções de trabalho com instrumento, ele tem um pouco mais de possibilidades, ele não vai ser um professor que vai chegar em uma sala de aula  somente tocando violão ou flauta doce. No aspecto estético a gente procura também estimular o aluno para um desenvolvimento de um gosto musical um pouco mais amplo. Um aluno que chega aqui no curso de música e só ouve jazz, ele necessariamente vai ter que aprender a ouvir música sinfônica também, porque a história da música ocidental se desenvolve muito fundamentada na orquestra sinfônica, então, ele vai ter que aprender a desenvolver uma apreciação musical mais voltada para a música erudita. E, a partir de um determinado desenvolvimento da história ele pode fazer ligações com o jazz ou coisas desse tipo, mas ele tem que ter um universo de atuação mais ampla. Isso também depende muito de cada um, como cada um aproveita o curso, mas agente, de um modo geral, tem feito um esforço para oferecer uma formação mais global e abrangente para o aluno.

Eu sei que esse curso é muito recente, mas vocês já fizeram algum tipo de avaliação? O que eu vocês vislumbram mais na frente?

A gente tem feito algumas avaliações internas, para você ter uma ideia a primeira turma se formou no ano passado, e foram três pessoas que conseguiram se formar, provavelmente no meio desse ano nós teremos mais 3 ou 4 pessoas se formando

O ingresso é de quantos alunos?

50 por ano. Então a gente não pode avaliar, assim, exatamente até agora qual é o impacto desses novos alunos, até porque esses alunos ainda não ingressaram dentro de um mercado profissional há um tempo necessário para a gente poder avaliar. Alguns desses alunos que se formaram agora já estão atuando como professores do Curso de Música. Mas, ainda é muito cedo para a gente poder avaliar. Eu acho que isso vai vir com o tempo, talvez daqui a 4-5 anos.

Você está otimista?

Sim. Eu acho que o Núcleo de Música ele já cumpre com um papel muito importante nesse aspecto interno, não no aspecto externo do ensino da música.

Vocês tiveram um concurso para professor recentemente?

Sim, o último que tivemos foi para professor substituto de violão,  mas a gente teve concurso para professor efetivo também – no ano passado.  Estamos só esperando o Governo Federal liberar as nomeações para o professor entrar no curso de música. Mas, no curso de música eu observo um papel muito importante que é o papel de criar pontes entres os alunos. Então você vê alunos de vertentes musicais completamente diferentes conversando, discutindo dentro do Curso de Música, formando conjuntos musicais. Nós temos algumas bandas que surgiram dentro do Curso de Música, que é o caso da Ferraro Trio, e mais alguns conjuntos de músicas de alunos que se encontram aqui no Núcleo de Música, e começam a desenvolver alguma interação, então, um espaço de interação entre esses agentes da música é muito importante. A gente começa a ter um impacto também na formação de professores que já vinham atuando há muito tempo dentro desse mercado de ensino da música, professores do Conservatório de Música há alguns deles aqui, e inclusive alguns alunos que ingressam aqui no curso passaram no concurso para professor temporário no Conservatório. E alguns professores que já atuavam no mercado informal como professor de violão ou de guitarra, e o Curso de Música ele dá uma ajuda no desenvolvimento da pedagogia, da sistematização do ensino da música, no desenvolvimento mais amplo do professor. Mas, a gente não pode avaliar isso ainda porque é muito recente, acho que em breve isso poderá ser feito.

Então me fala agora sobre o que você conhece da Música de Sergipe, como é que você tem observado o cenário atual.

Eu tenho algumas observações que são pessoais e algumas que são mais do universo da Academia. Eu observo que, de um modo geral, a música de fora domina a música de massa em Sergipe, a música baiana tem muita força aqui dentro, por exemplo. Então, esse mercado que é mais “vantajoso” para quem toca e para quem promove, ele é dominado pela Bahia. Os músicos sergipanos que eu conheço e que fazem parte do Núcleo, eles atuam em pequenos nichos, por exemplo, esse nicho do Rock’n’roll. Então você tem algumas bandas que atuam no Rock’n’ roll, mas com algumas dificuldades de sobrevivência, porque o público não é muito grande, é um pouco restrito ainda, os espaços para tocar ainda não são muitos, então eles tocam, por exemplo, no Capitão Cook, e de novo no Capitão Cook, então aquele passa a ser o espaço deles, e não tem mais outros locais que eles possam atuar, a não ser em algum evento subsidiado pelo Governo, como o Verão Sergipe, mas os espaços ainda são bem restritos. A música erudita aqui ainda tem um espaço bem reduzido, de músicos que dependem do Estado, que estão empregados na Orquestra Sinfônica de Sergipe, e fora disso não se consegue sobreviver de música sinfônica aqui, a não ser tocando em casamento, por exemplo. Então, eu vejo que o mercado Sergipe, se é que podemos chamar assim de mercado, é formado por pequenos nichos, e esses nichos por serem pequenos eles tornam a sobrevivência do músico um pouco difícil, e aí por conta disso muitos desses músicos acabam  enveredando para o ensino da música porque é uma forma de sobrevivência um pouco mais garantida, você não tem sempre aquele couvert ou aquele show garantido, mas você tem 8-9 alunos que você pode dar aula, e daí ter uma fonte de subsistência. Mas são algumas observações, assim, pessoais. O trabalho que eu tenho mais científico sobre a região de Sergipe são as dissertações de mestrado, que foi sobre uma banda filarmônica específica, que é a Nossa Senhora da Conceição. Então é um trabalho que começa em 1898, e vai até 1915. Nesse caso da banda filarmônica, eu trato um pouquinho da cultura geral das bandas filarmônicas aqui em Sergipe e da ligação dela com um fenômeno geral brasileiro das bandas filarmônicas, e dentro disso aí o repertório da banda filarmônica, a economia da banda filarmônica, como ela funcionava, quais foram as maneiras que ela foi encontrando, no final do século XIX e início do século XX para sobreviver.

E esse trabalho está disponível?

Sim, está disponível. Mas é uma coisa bem interessante porque a banda filarmônica em muitas dessas cidades do interior, elas representam a tradição musical. Você não tem uma outra tradição musical antiga além dessas banda, e essas bandas filarmônicas acabam sendo responsáveis  também pelo ensino da música. Algumas delas deixaram de existir, outras encontraram formas de sobreviver. A maioria das que encontraram formas de sobreviver foi através da associação com projetos de cunho social, que não tem somente na atividade de execução musical o objetivo principal, mas elas podem também ter um trabalho de inserção social, como  trabalho  de ensino que é muito importante, que é o caso da filarmônica Nossa Senhora da Conceição, que é  o exemplo de banda filarmônica de maior sucesso no estado.

De onde ela é?

De Itabaiana. Mas é um tipo de fenômeno musical que se organiza de maneira diferente ao longo da história. No final do século XIX, ela sobrevivia através de mensalidades  pagas pelos sócios, numa espécie de clube social e através de doações, porque boa parte da elite social daquela época fazia parte da banda filarmônica, o intendente municipal, o delegado de polícia, o político e o comerciante mais importante da cidade faziam parte da filarmônica, e eles contribuíam com dinheiro. A banda filarmônica tocava nos leilões, tocava na praça, tocava no circo, ela fazia parte da cultura econômica da sociedade. Mas, a partir de um determinado momento ela não faz. A partir de um determinado momento ninguém mais paga a banda para tocar em um enterro. As bandas filarmônicas não podem mais viver pela mensalidade paga pelas pessoas porque elas já não são mais aquele clube social onde as pessoas se encontram, então, elas têm que encontrar outras maneiras de sobrevivência. E hoje em dia, na maioria dos casos, elas dependem do Estado, salvo algumas que conseguem ter algum apoio de empresas particulares ou algo do tipo.

Você poderia nominar alguns artistas ou bandas daqui que você conhece ou goste?

Os que eu tenho contato próximo é o pessoal da Ferraro Trio, Snooze, The Baggios. Das pessoas que trabalham mais com a música mais regional, eu conheço a Anabel, Carvalho que desenvolve um trabalho em um grupo chamado a Cumbuca. Tem o pessoal que toca na Orquestra Sanfônica de Aracaju, e muitos músicos que tocam na Orquestra Sinfônica, e são alunos daqui do Curso de Música. Que eu conheço e atua no mercado tem o Renantique, a Naurêa, e a Alapada.

Você consegue identificarem algum desses grupos algum tipo de inserção nacional e internacional?

Efetivamente, não. Não como foi feito como uma série de compositores da Bahia que se estabeleceram realmente de uma maneira nacional, e era uma coisa que começa há muito tempo. Os compositores começaram a fazer isso ainda lá no século XIX com Xisto Bahia, depois veio o Baiano que fez gravações na rádio. Depois Dorival Caymmi ainda na década de 40-50, depois veio João Gilberto, a nova geração que veio depois com Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gal Costa e Gilberto Gil, então eles criaram uma cultura do músico baiano que sai de lá de Salvador e aí, digamos assim, é consagrado nacionalmente. Mas aqui em Sergipe isso ainda não foi criado. Então nós temos alguns músicos que, de uma forma geral, conseguiram atuar dentro desse mercado nacional, mas não se estabeleceu com renome. A gente tem o caso de muitos músicos sergipanos que conseguiram sucesso em outros estados, ligados a música sinfônica. Tem músico sergipano que toca na Orquestra Sinfônica de Minas Gerais e do Paraná, mas não são personalidades reconhecidamente sergipanas, são só músicos, entendeu? Mas não há aquela coisa da cultura musical sergipana, como há a cultura musical pernambucana, o Manguebeat, a cultura musical baiana, a MPB, ou o axé, alguma coisa do tipo. Então não é reconhecida a música sergipana como uma espécie de rótulo ou qualquer característica estética que você ligue aqui ao estado. Isso ainda não aconteceu. A gente tem alguns compositores que eu sei que atuam nacionalmente, como é o caso da Patrícia Polayne que já tocou em alguns eventos nacionais, a própria banda Naurêa que de vez em quando toca em alguns lugares, tem o caso também do Antônio Rogério e Chico Queiroga que conseguiram até um fenômeno aqui que é vender disco, com mais de 20 mil cópias de Lps, talvez eles sejam abanda sergipana que mais venderam lp aqui em Aracaju, e chegaram a tocar  nos EUA, mas não conseguiram vender ainda essa imagem da música sergipana. Eu acho que é isso que falta. A gente tem grupos que conseguem atuar aqui ou acolá, esporadicamente, mas essa música caracteristicamente sergipana ainda não foi  [ruído na gravação], ou ela ainda não existe. Isso é um fenômeno que acontece tanto espontaneamente quanto é um fenômeno que acontece com a força das pessoas. A Tropicália foi um fenômeno que aconteceu por conta da força de algumas pessoas, a Bossa Nova também aconteceu da cabeça de algumas pessoas.

Há de se pensar, de agora em diante, em criar mesmo um ambiente para isso. A plataforma da música e do músico hoje é outra que não cabe mais nesse movimento.

Nesse regionalismo talvez.

Para a gente encerrar, uma pergunta muito íntima e pessoal. O que é música para você?

É uma pergunta bem difícil. A música para mim tem um valor pessoal, e tem um outro lado que é essa compreensão mais intelectual hoje, antigamente música era inserida em contextos mais diferentes. Para mim, pessoalmente a música tem um papel muito importante com relação ao sentimento, porque a gente, às vezes, começa a exercer uma atividade musical quando nem se recorda direito, dizem que a gente começa a perceber a música ainda dentro da barriga da mãe, então, você acaba criando uma relação sentimental com aquilo que você ainda nem consegue explicar direito, e no final das contas o mais importante é aquilo que você não consegue explicar, aqueles aspectos da música que são menos tangíveis. Então, eu tenho uma relação sentimental forte com a música. A música brasileira é uma música que me encanta muito, e é uma música mais universal. Eu tenho uma ligação muito forte com a música sinfônica, por ter sido durante muito tempo uma parte desse universo. Mas a música para mim, hoje em dia, no memento em que a gente vive atualmente, ela consegue ter uma complexidade de significados. Antigamente a música poderia adquirir, por exemplo, na Idade Média europeia um sentido de elevação de espírito, de uma música que poderia realçar aqueles ideais estabelecidos pela Igreja cristã, dentro daquele contexto de igreja estabelecida na Idade Média. No período Barroco, do século XVII, a música tinha que necessariamente fazer parte daquele contexto da aristocracia e da nobreza, fazer parte dos rituais, daqueles conjuntos de símbolos. (…) e hoje em dia, nos temos a combinação  de todos esses elementos. A gente tem hoje a música ligada a espiritualidade, tem muita gente que adora fazer mantras ouvindo música ditas de New Age, e entrar naqueles estados mais alterados de consciência. Tem gente que ouve a música só para fruição estética, sem nenhuma ligação com a espiritualidade ou a dança, tem gente que ouve música exótica da Malásia, da África, ou algo do tipo. A gente tem a música ligada ao entretenimento, de pessoas que querem ouvir a música para dançar, sem ligar necessariamente à estética. E, a gente tem que necessariamente saber utilizar a música, não precisa ficar o tempo todo com a música somente espiritualmente, somente para a fruição estética, nem somente para diversão, que é um aspecto muito recente da música ligada excessivamente ao entretenimento. Eu acho que tem momento para tudo, acho que tem momento da gente aproveitar a música como entretenimento sem um motivo tão severo. E, momentos quando temos a música ligada à algum ritual que dê valor  a esses valores mais espiritualista. Eu acho que a gente hoje em dia tem essa série de oportunidade de trato com a música. Eu acho que é o contexto que ela se insere hoje em dia.

Foi bom, João. Muito obrigada!

Transcrição do áudio: Talita Mota.

Edição: Allan Jonnes.

Crédito da foto: divulgação.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *